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Um Nero Laranja

Um Nero Laranja

Por: Alexandre Araujo Costa

Tão inexorável quanto as Leis da Física parece ser a tendência à decadência dos grandes impérios – no sentido ampliado da palavra – da velha Roma às grandes potências atuais, os EUA à frente. Reza a lenda que enquanto Roma ardia, seu imperador cantava, acompanhado de sua harpa, o Iliupersis , poema épico que descrevia o saque de Tróia. Quase dois mil anos depois, Gaia saqueada e aquecida pelo Nero laranja, talvez até mesmo a trilha musical seja de gosto duvidoso.

Em outubro do ano passado, Robert De Niro – cujo sobrenome está a uma vogal do primeiro nome do imperador romano – apareceu em um vídeo que circulou nas redes sociais simplesmente detonando Trump. O ator chamou o então candidato de desastre nacional, idiota, palhaço, porco, estúpido, vigarista, cachorro, que não sabe do que fala, que não se importa com nada, etc. …

Hoje, presidente, digamos que Trump está tendo uma enorme oportunidade de confirmar a fala de De Niro. Sobre o clima em particular, a parte de “não saber do que fala” e “não se importar com nada” não poderiam ser mais adequadas.

O presidente dos EUA chegou a afirmar há alguns anos que “o aquecimento global é uma farsa inventada pelos chineses” (quando sabemos que a única farsa, além do bronzeado alaranjado do Nero contemporâneo, é exatamente a propaganda negacionista, extensivamente financiada pela indústria de combustíveis fósseis para confundir a opinião pública), declarou seu amor pelo carvão na campanha eleitoral, prometendo recriar postos de trabalho nesse setor da economia (discurso maliciosamente dirigido para o setor de desempregados, o que mostra o quanto é preciso que a esquerda evolua, no século XXI, além da simples defesa de “emprego e renda”) e chegou ao cúmulo de dizer que “cancelaria o Acordo de Paris“.

Desde a campanha, o negacionismo trumpiano sempre esteve colado à amálgama reacionária que também contém misoginia, xenofobia, racismo… Claro, com um planeta cada vez mais sob risco de um caos climático generalizado, produzindo milhões de refugiados mundo afora, é igualmente assustador que o presidente da maior potência mundial também adote um discurso xenófobo e defenda muros para separa pessoas, enquanto o capital e o CO2 circulam livremente. E claramente se enganaram os que achavam que “era apenas bravata”, que “Trump iria se ajustar ao sistema”, etc.

O que aconteceu mesmo?

Assim como sobre vários temas (saúde, educação, financiamento da ciência, política de imigração, etc.), a postura de Trump sobre o ambiente e o clima, após sua posse, foi a de implementar o programa que defendeu. Nomeou Secretário de Estado Rex Tillerson, até há pouco o executivo-chefe da toda poderosa Exxon-Mobil, a petroquímica que sabia dos riscos do aquecimento global há quase 4 décadas (como mostrei em um de nossos artigos anteriores) e fez de tudo para defender seus interesses financiando o negacionismo climático.

Em seguida, foi a vez de nomear, para comandar a Agência de Proteção Ambiental (EPA, da sigla inglês), ninguém menos Scott Pruitt, negacionista radical, que na condição de procurador do estado de Oklahoma havia processado várias vezes essa mesma Agência para defender o “direito a poluir” das empresas mais sujas.

Mas foi com um decreto assinado de próprio punho na semana passada que o caldo entornou de vez. De uma vez só foi declarada guerra ao frágil e insuficiente legado de Obama na política para o clima e o ambiente, levantou a moratória do carvão e ampliou as permissões para extração de gás natural via fracking.

Fato: A política irresponsável de Trump nos coloca, neste momento, em uma situação bem mais complicada do que já estávamos, num buraco fundo como uma mina de carvão.

Primeiro, como o Acordo de Paris é baseado em “contribuições determinadas nacionalmente” (as NDCs), as contas já não fechavam e as estimativas dos cientistas são de que mesmo que as metas voluntárias de todos os países fossem cumpridas à risca ainda ficaríamos na rota de um aquecimento de 2,7°C a 3,5°C ao final do século, muito longe do intervalo do próprio acordo (1,5°C a 2°C).

Segundo, que os EUA são os maiores emissores históricos de gases de efeito estufa (embora a China os tenha ultrapassado em termos de emissões anuais) e, tendo erigido seu poderio econômico, político e militar queimando combustíveis fósseis como nenhum outro país queimou, guardam uma dívida climática imensa para com o resto da humanidade.

Terceiro, que, num contexto em que precisamos de uma transição acelerada para uma matriz energética 100% descarbonizada e renovável, o carvão, por ser o combustível fóssil cuja queima produz maior quantidade de CO2 por unidade de energia e o gás de fracking, por conta da grande liberação de metano (gás cujo efeito sobre o clima na escala de 20 anos é mais de 80 vezes maior do que o do CO2, molécula a molécula) estão entre as piores fontes fósseis que há (ao lado das tar-sands canadenses que continuam sendo exploradas sob o governo do “progressista e avançado” Trudeau).

Resta, claro, apostar que o desgaste junto à opinião pública se aprofunde e que as mobilizações de massa contra o governo e a resistência multicor das mulheres, indígenas, jovens, LGBTs, trabalhadores, estudantes, cientistas, etc. incendeiem a nova Roma.

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Autor

Alexandre Costa
Alexandre Costa

Alexandre Araújo Costa é ativista climático, militante ecossocialista, físico de formação, Ph.D. em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), edita o blog “O Que Você Faria se Soubesse o Que Eu Sei” e é um dos coordenadores do Ceará no Clima.

PBMC: http://www.pbmc.coppe.ufrj.br/pt/
Blog: http://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com.br/
Ceará no Clima: https://www.facebook.com/CeNoClima

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