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Racismo e suspense psicológico? Corra (para assistir)!

Racismo e suspense psicológico? Corra (para assistir)!

Uma crítica sem spoilers por André Nunes

Não é fácil fazer suspense no cinema atual. Todas as fórmulas parecem manjadas, os realizadores mais preguiçosos e uma vontade de seguir indefinidamente com “aquilo que funciona”, mas não sai da mesmice. Também é tarefa árdua abordar a questão racial nas produções para o grande público, seja no cinema ou na TV (este mês, a Netflix mandou bem com a sua Cara Gente Branca – aquela que causou polêmica quando o trailer foi divulgado).

Não é nada fácil. Agora imagina unir essas duas temáticas num filme? Eis que surge o melhor suspense de 2017 até agora, certamente uma das gratas surpresas dos últimos anos e sucesso de bilheteria: Corra! (Get out), escrito, produzido e dirigido pelo estreante Jordan Peele, mais conhecido por sua atuação humorística na TV americana.

Protagonizado por Daniel Kaluuya (Black Mirror) e Allison Williams (Girls), Corra! nos apresenta uma história aparentemente banal: namorando há cinco meses, o casal Chris e Rose decidem passar um final de semana na casa dos pais de Rose, para que o namorado possa conhecer sua família. O único receio de Chris é a forma como a família Armitage (branca) vai lidar com o fato de ser negro – já que é o primeiro namorado negro de Rose.

Após um contato inicial amigável com os “sogros” Dean (Bradley Whitford), um neurocirurgião, e Missy (Catherine Keener), psiquiatra especialista em hipnose, Chris passa a reparar em estranhos acontecimentos envolvendo não só o comportamento da família Armitage, como de seus dois empregados domésticos.

Começa, então, o suspense propriamente dito, que não pode (nem deve) ser explicitado nessa crítica, já que tem o típico clímax e desfecho que, de tão surpreendentes e bem trabalhados, deixam de ser meros spoilers pontuais e passam para uma experiência completa de “estraga prazeres”.

Vale comentar que todos os elementos do roteiro são bem trabalhados, sem incongruências narrativas. Até o alívio cômico, na figura do amigo de Chris, Rod (Lil Rel Howery), tem sua função justificada no último ato.

Por sua vez, a temática racista está presente condensando momentos do que, infelizmente, ainda passamos diariamente: a desconfiança policial numa abordagem de trânsito, os questionamentos ofensivos e indiscretos de parentes e a “absoluta normalidade” com que brancos convivem com negros, desde que sejam em funções subalternas. Afinal, “ninguém é racista”, até “votaria no Obama se concorresse ao terceiro mandato” (alerta de ironia)…

Com atuações impressionantes – destaques para o casal protagonista e a empregada Georgina (Betty Gabriel), cuja estranheza incontrolável deve povoar os pesadelos de muita gente – Corra! marca de forma arrebatadora a estreia de Peele na telona. O problema agora vai ser corresponder às expectativas nas próximas produções, mas aposto minhas fichas nele! 

Corra! (Get Out)

Direção, roteiro e produção: Jordan Peele

Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Lil Rel Howery e Betty Gabriel

Nota: 4,5/5

 

 

 

André Nunes, formado em Jornalismo pela UFPR, com passagem pela Université Stendhal, na França. É analista de comunicação na NQM Comunicação. Viciado em séries e cinéfilo, escreve sobre cinema nas horas vagas.

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