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O que pode subir quando bombas caem?

O que pode subir quando bombas caem?

Há cerca de uma semana, as mídias e as redes sociais anunciavam: a popularidade de Donald Trump havia estabelecido uma marca historicamente baixa, segundo pesquisa organizada pela Universidade de Quinnipiac. Apenas 35% da população dos EUA apoiava o presidente, ao passo que 57% o rejeitava. Num contexto em que a forte polarização das eleições se manteve, até mesmo os 79% de apoio mantidos junto ao eleitorado que se declara como “republicano” não impressionam. Mais do que real apoio ao governo, parecia uma recusa a dar o braço a torcer. Até porque em outros segmentos, a situação era diametralmente oposta: 91% de rejeição entre os eleitores democratas, 77% de rejeição entre os “não-brancos”, 63% de rejeição entre as mulheres. A cada dia parecia ficar claro: “orange is the old white”.

Nenhuma das medidas de Trump até a semana passada (pauta anti-imigrantes, cortes em serviços públicos, desmonte da regulação ambiental etc.) pareciam ajudar, pelo contrário. Segundo Tim Maylor, coordenador da pesquisa, Trump continuava “com dificuldades, mesmo entre seus partidários mais fieis, muitos deles já duramente pressionados para ver pelo menos uma luz nesta preocupante espiral descendente”.

Essa “luz” parece ter vindo na forma dos velhos clarões das guerras. Ordens de Trump fizeram cair 59 mísseis Tomahawk contra uma base aérea na Síria na quinta-feira passada (6 de abril), sabe-se lá se seguindo o conselho de sua adversária nas eleições (sim, Hillary Clinton defendeu que a Síria fosse atacada, horas antes de Trump ordenar o bombardeio à base de Shayrat).

Um objetivo Trump já conseguiu atingir. A grande mídia dos EUA estava detonando o Nero Laranja e se não fosse pela Fox News ele só poderia contar com as agências de “fatos alternativos” tipo Breibart… Eis que a cobertura midiática do bombardeio realinhou-se em boa parte com o velho nacionalismo yankee. A CNN, por exemplo, foi de “quem está com os EUA no ataque à Síria e quem está contra”. Mesmo setores mais críticos, ao destacarem o aumento das tensões com Moscou, terminam prestando um serviço a Trump, afinal esses mesmos veículos insistiram em se beneficiar do chauvinismo nacional (que sempre conta com forte apoio popular) ao pintarem o presidente como uma marionete dos russos e agora o tom da cobertura entra em contradição com o que era dito antes… Pode ser que essa situação garanta um refresco a Trump, mesmo tendo sido ele tão abertamente impostor, no teatro em que apareceu sendo “solidário” às crianças sírias, as mesmas a quem ele fecha as fronteiras.

Claro, um bombardeio não tem apenas um viés de recuperação da imagem interna. Ele movimenta as peças no tabuleiro da geopolítica mundial e certamente tem fortes elementos de afirmação do imperialismo dos EUA perante Rússia, China, etc. O que não se pode perder de vista, no entanto, é que não estamos no final do século XIX ou início do século XX. Há mais do que disputas “nacionais” e inter-imperialistas (obviamente não considero como sério qualquer fetiche de “anti-imperialismo” – nutrido por alguns – em relação à Rússia ou à China). Há novidades do ponto de vista da organização do capital. E isso interfere nas movimentações da própria máquina militar, introduzindo aspectos em relação às guerras imperialistas de cem anos atrás.

Hoje, o capital é de fato globalizado, as corporações são – praticamente sem exceção – transnacionais cujos fluxos de capital produzem teias que giram pelo mundo várias vezes, entrelaçando indústria armamentista, indústria de combustíveis fósseis com todo o resto do sistema via mercado financeiro. Um fundo de pensão da Rússia pode muito bem ser dono de um pedaço de uma mineradora com sede no Canadá, esta investir em energia na Austrália, injetando dinheiro numa empresa que controla ações de uma indústria de material militar nos EUA.

Nesse sentido, é bom dar uma examinada no comportamento das próprias corporações em si. Os cortes de Trump em educação, ciência etc. vieram acompanhados de alguns aumentos de orçamento, inclusive o militar (a proposta de orçamento apresentada por Trump trazia um aumento de US$ 12 bilhões nas “Operações de Contingência no Exterior”, eufemismo para… guerra, claro).

A Raytheon (empresa que produz o Tomahawk), e outras corporações da indústria bélica (que também estariam a essa altura querendo o seu quinhão num eventual governo Hillary) já estavam em festa quando da eleição. O anúncio da vitória de Trump produziu uma alta de 7,47% nas ações dessa companhia¹ na bolsa de Nova Iorque, mais do que as petroquímicas. Somente as corporações do carvão obtiveram altas maiores (a Arch Coal, por exemplo, teve um dia de glória quando Trump foi eleito, com suas ações subindo 10,4%, como mostrei neste artigo). Desta vez, nenhuma surpresa: no dia seguinte ao bombardeio, a Raytheon viu a tendência de queda de suas ações se reverter e subiram 1,47%. Ações da Lockheed e da General Dynamics também fecharam em alta.

Ainda no terreno quase invisível das movimentações das corporações, talvez estejamos olhando muito para Trump e pouco para Rex Tillerson. Através deste, a Exxon (que foi dirigida pelo hoje Secretário de Estado de Trump por uma década inteira) assumiu nada menos do que o controle do Departamento de Estado dos EUA. Importante: a Exxon tem planos de investimento em parceria com a Gazprom russa que chegam a meio trilhão de dólares nos próximos anos, incluindo exploração de petróleo e gás no Ártico. Tillerson e Putin, aliás, têm uma relação próxima de longa data.

Claro, “amigos” podem muito bem passar a perna um no outro, especialmente se, como o próprio Tillerson diz, a “filosofia” é ganhar dinheiro. Mas como neste caso, não se pode dizer “negócios à parte”, há que se avaliar bem o que está acontecendo, especialmente se haverá um distanciamento real entre Putin e o governo Trump. Claro que há traições na geopolítica, bem como no mundo dos negócios, mas se permanece firme a união entre Exxon e Gazprom, até há pouco personificada na aliança entre Tillerson e Putin, a tensão entre as potências pode ser mais jogo de cena do que qualquer outra coisa. Embora o Secretário de Estado tenha dado declarações duras contra a Rússia, talvez tenhamos mais elementos para análise a partir da visita de Tillerson ao seu velho parceiro nesta semana (sim, o ex-CEO da Exxon vai a Moscou pessoalmente).

Enquanto aguardamos as cenas do próximo capítulo, porém, constamos tristemente que enquanto bombas caem, não se ergue apenas uma mistura terrível de poeira e sangue. Sobe uma nuvem de mentiras e interesses escusos. Certamente sobem a arrogância imperialista e a insegurança em escala mundial. Ações na bolsa sobem, assim como – muito provavelmente – a popularidade até aqui cambaleante de um populista de direita. E nesse terrível contexto, a guerra continua a ser um maldito negócio, lucrativo como sempre, e o lucro, para os senhores da guerra e do dinheiro, vale mais do que a vida dos sírios e de suas crianças.
¹ Este e outros dados do mercado de ações foram obtidos via finance.yahoo.com

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Autor

Alexandre Costa
Alexandre Costa

Alexandre Araújo Costa é ativista climático, militante ecossocialista, físico de formação, Ph.D. em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Estado do Colorado, com pós-doutorado na Universidade de Yale. Foi um dos autores principais do primeiro relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), edita o blog “O Que Você Faria se Soubesse o Que Eu Sei” e é um dos coordenadores do Ceará no Clima.

PBMC: http://www.pbmc.coppe.ufrj.br/pt/
Blog: http://oquevocefariasesoubesse.blogspot.com.br/
Ceará no Clima: https://www.facebook.com/CeNoClima

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