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O que está a pensar a esquerda europeia?

O que está a pensar a esquerda europeia?

No final de semana dos dias 21 e 22 de outubro ocorreu o Plano B – Cimeira europeia, com o tema “Desobedecer a Europa da Austeridade!”, convocado para a capital portuguesa em alusão aos dez anos do tratado de Lisboa e organizado pelo Bloco de Esquerda.

Esse foi o 5º encontro do Plano B, sendo precedido pelos de Paris, Madrid, Copenhagen e Roma, com a participação de partidos, movimentos sociais e ativistas do campo progressista e da esquerda Europeia.

Não à toa que Lisboa foi escolhida como sede desta cimeira; considerando que os “atuais tratados da União Europeia constituem um colete-de-forças às nossas democracias e às nossas sociedades e economias”, como expresso no manifesto para realização do Plano B, data-se, em 2017, os dez anos da assinatura do Tratado de Lisboa, o Tratado Reformador, que substitui a fracassada tentativa de uma constituição europeia, através de emendas à tratados na época já em vigor. Critica-se este por – sem sequer ter sido aprovado em referendo nos respectivo países signatários – atender lobbys econômicos em detrimento das demandas e desejos populares, escamoteando a soberania dos povos.

A crítica à financeirização das economias e à imposição de regras absolutamente restritivas (marcadas pelos tratados) que impõem medidas de austeridade às populações dos países membros da União Europeia, em especial os que ocupam a periferia do sistema financeiro, é certa entre os que participaram da cimeira, afinal, como disse a porta-voz do Bloco de Esquerda Catarina Martins durante a sessão de encerramento do Plano B, “entre os tratados e os povos, escolhemos os povos”.

Criticar a União Europeia não significa brados nacionalistas

Na constituição da unidade entre os partidos e organizações europeias se dialoga a formação de um programa alternativo para a Europa, que seria este o “Plano B”, tendo como marcos fundamentais o respeito às democracias e autodeterminação de cada povo, sendo ainda um plano que “coloca o planeta e os direitos sociais acima dos tratados”, como destacou Nicolaz Villumsen, membro do parlamento dinamarquês pela Aliança Vermelha e Verde.

Diante de uma Europa de diversas crises, sejam elas humanitárias, como a necessidade do acolhimento dos imigrantes, ou econômicas, com medidas de austeridades que destroçam as condições de vida dos povos, acostumou-se a identificar que críticas à União Europeia teriam um caráter nacionalista fundamentalista e isolacionista, que se recusa ao diálogo e a constituição de um projeto comum no continente. Não é assim para as organizações que participaram deste encontro.

“temos que bloquear a extrema-direita e não copiar o seu programa, esta é a tarefa da esquerda transformadora” – Miguel Urbán (Podemos)

Se a extrema-direita tem crescido com base de um discurso anti-unidade europeia, se constitui uma “narrativa principal que as pessoas estão a votar nestes partidos porque há imigrações. Isto é uma mentira. As pessoas estão a votar porque vivem situações econômicas e sociais piores; é preciso mudar a narrativa que está tudo indo pelo caminho correto e denunciar aquilo que aflige as populações”, explicou Stefano Fassina, membro do parlamento italiano, em uma das mesas da cimeira.

Para Miguel Urbán, membro do parlamento europeu pelo Podemos, o fato da extrema-direita conseguir se posicionar de forma a lhes trazer crescimento é preocupante: “temos que bloquear a extrema-direita e não copiar o seu programa, esta é a tarefa da esquerda transformadora”, destacou o parlamentar espanhol, para em seguida apontar que “não se deve confundir projeto europeu com União Europeia”.

Catalunha e Grécia no centro do debate

Diante do processo independentista da Catalunha junto à Espanha e dos desdobramentos e movimentos de capitulação à Troika de Alex Tsipras e do Syriza, na Grécia, estes foram temas por vezes mencionados nas mesas e que mais aqueceram a plateia, de mais de 400 pessoas, que circulou pelo evento.

Merecem destaque as falas de Eulália Roguent, membro do parlamento catalão pelo CUP e da ex-presidente do Parlamento Helênico e fundadora do partido Via para a Liberdade, Zoe Konstantopoulou, enfáticas em suas posições. “O que aconteceu nas últimas semanas foi o maior movimento de desobediência do sul da Europa, tendo um povo que decidiu decidir como protagonista”, enalteceu Roguent, explicitando ainda que “o governo espanhol, o PSOE e a monarquia, estão dispostos a utilizar um mecanismo nunca usado para dissolver os organismos autônomos da Catalunha e a emissora pública” e que “a alternativa para a autodeterminação, não só da Catalunha, mas para construção de uma Europa dos Povos, é a desobediência”, conclamou a ativista catalã, em defesa do plebiscito que aprovou a independência do povo catalão.

Sobre a Grécia, houve uma evidente convergência na análise que a União Europeia, diante da ascensão do governo popular de esquerda, anti-austeridade, “sequestrou” aquele Estado e o manteve em garrote para que não contaminasse outros países e que servisse de exemplo para os que ousarem se levantar contra os tratados do bloco. Há também um consenso na constatação de uma crescente capitulação do Syriza, em especial após plebiscito realizado para saber se população grega concordava com as medidas de austeridade impostas pela União Europeia, onde o “oxi” (não em grego) saiu vitorioso.

“há um povo que exerceu o seu direito de autodeterminação e que não foi respeitado; não podemos falar que eles têm direito à autodeterminação, mas não o direito a exerce-la” – Zoe Konstantopoulou (Via Para a Liberdade)

No entanto, não houve voz mais veemente do que de Zoe Konstantopoulou, que considera um golpe de estado o que houve após o plebiscito de 2015, onde o governo não acatou a decisão popular e na sequencia dissolveu o parlamento, convocando novas eleições, para constituição de uma nova maioria sob sua hegemonia.

“Há um povo que exerceu o seu direito de autodeterminação e que não foi respeitado; não podemos falar que eles têm direito à autodeterminação, mas não o direito a exerce-la”, argumentou a grega indicando ainda que “é preciso defender o povo desta organização criminosa que é a União Europeia, que chantageia os povos para atender os interesses do stabelichment europeu, como ocorre na Grécia” e que “estamos no nosso direito de desobedecer e até derrubar este regime, é este o nosso plano”.

Por fim, Konstantopoulou também solicitou que o Syriza não participasse mais articulações da esquerda e que o atual governo grego fosse rechaçado: “um partido como Syriza ser apresentado como esquerda é o que afasta o povo da esquerda”, afirmou a ativista.

As bases deste projeto europeu

Se nas palavras Eric Toussaint, porta-voz do Comité Para a Abolição das Dívidas Ilegítimas, a União Europeia está a se comportar como uma “organização criminosa” ao, com seus tratados, permitir que milhares de imigrantes morram em suas travessias e não assegurar direitos básicos aos povos, não há outra alternativa senão apresentar um outro projeto europeu, um plano B para substituir o considerado fracassado plano A.

É neste sentido que também argumenta Mariana Albiol, membro do Parlamento Europeu pela Esquerda Unida, acentuando que “não temos futuro nessa União Europeia, que não se muda com maquiagem ou quatro reformas. Nossa alternativa é europeia, mas não a União Europeia. Precisamos de um programa comum alicerçados em direitos sociais”. Mas o que é necessário para constituir este projeto?

Quatro palavras, inúmeras vezes repetidas, parecem se constituir como valores basilares desta Europa do povos: mobilização, unidade, autodeterminação e solidariedade. É evidente que não se terá uma Europa aos contornos que a Esquerda propõe senão pela mobilização a partir dos de baixo, com os trabalhadores e os movimentos sociais, com aqueles que sempre procuram dialogar.

“no mundo, ninguém é estrangeiro” –  Catarina Martins ( Bloco de Esquerda)

Não há possibilidade de construção de um programa comum desta dimensão se não houver unidade dos vários setores e organizações que estão nesta elaboração; tão pouco será possível esta unidade se não houver respeito à autodeterminação dos povos, bem como a autodeterminação das mulheres, negras e negros, LGBTI e imigrantes, afinal como dito por Catarina Martins, “no mundo, ninguém é estrangeiro”.

Por fim, não se constitui um projeto baseado na garantia de direitos e acolhedor às diversas lutas e demandas sociais se solidariedade não se fizer por prática. Sem contrariar esta lógica, por toda a cimeira estiveram presentes palavras de solidariedade às vítimas e aos povos de Portugal e da região da Galícia, que sofreram com os incêndios em suas florestas.

Se é verdade que esta alternativa europeia não se constitui do dia para a noite, continuam presentes na movimentação destas esquerdas a mobilização contra os tratados considerados abusivos e contra as políticas de austeridade que flagelam diversos povos, bem como pela garantia da soberania e respeito pelas decisões dos povos.

Como dito por Jean-Luc Mélechon, candidato na eleição presidência na França em 2017, pelo movimento França Insubmissa, em vídeo enviado para a reunião, “Temos que construir um plano B, ceder não é alternativa”, e assim segue a esquerda na Europa.

 

Texto originalmente publicado no blog Cães Ladram

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