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O quase prefeito

O quase prefeito

O ato limite do prefeito de São Paulo: refugo da sociedade para alimentar os pobres

Por Luciane Soares

A maior cidade da América Latina acorda com um pote de ração na sua porta. Alguns defensores do prefeito janota batem panelas e dizem “siga prefeito, mas não se candidate à presidente”. A grande maioria da população quer pegá-lo de porrada, já horrorizada com a materialização de um voto que oscilou entre o branco, o nulo e o playboy (no caso, este que agora come ração sob holofotes). Mas que surpreendente!

É este o aventureiro que lançou-se no vácuo e governa São Paulo mostrando que não está para brincadeira: em poucos meses de governo produziu uma seqüência de atos desumanos. Destruição da arte urbana, Internação compulsória, retirada de cobertores de moradores de rua e agora a ração feita de reaproveitamento de alimentos. Quem precisa de Dória? O frutífero bate boca com Alberto Goldman (vice-presidente nacional do PSDB) , expõe os interesses daquele que “ainda não nasceu como prefeito”. O João Trabalhador, que vive seu mandato como se estivesse eternamente em um cosplay.

É incrível que para barrar Haddad ou por puro desinteresse político, a “locomotiva” do país (uma auto representação conseqüente) seja entregue ao maquinista maluco. Quem está no comando? Um homem extremamente vaidoso e raivoso que vive a cada dia como se estivesse em um reality show da Band. Acompanhado de câmeras. A noção de modernidade do prefeito é criar todo tipo de parceria com a iniciativa privada, para o transporte, para a saúde, para a alimentação. De celulares que servem para passe a biscoitos com cor de ração canina feitos de reaproveitamento de produtos perto do vencimento. As empresas doadoras terão benefícios econômicos e isenção de impostos. Vai ter até isenção de IPTU por doar alimentos que iriam para o lixo.

Este mesmo prefeito reduziu itens de merenda escolar e diminui a distribuição de produtos orgânicos nas escolas. Ou seja, a Plataforma Sinergia (que tem como uma de suas executivas uma ex funcionária da Monsanto) vai processar os alimentos e deve ganhar um bom valor com isto. Ao invés do investimento em agricultura familiar ou mesmo de adesão aos programas que já existem e funcionam junto as feiras públicas, o prefeito opta mais uma vez por utilizar o que há de pior. E com o que há de mais essencial para o ser humano: o alimento. Ao fazer isto, debocha com requintes de sadismo de toda a população, dos programas de combate à fome, da própria noção de política pública. Transforma tudo em uma casa de experimentos que têm como público o homem comum. Este que em sua opinião deve ser o “fracassado”. Termo tão utilizado em tempos neo liberais para classificar milhões de trabalhadores que recorrem aos Estado em busca de recolocação no mercado de trabalho, direitos ou de benefícios até então assegurados e ameaçados pelas reformas em curso destes governos. Mas enfim, são coisas do prefeito aprendiz… precisamos falar de segurança alimentar com urgência.

Dória puxa uma locomotiva, sim, ele encarna direto de São Paulo a nova forma de gestão. A gestão que puxa uma linha de concreto entre a cidade e os que podem consumir a cidade. Entre os carros e as pessoas, entre os que podem frequentar as cantinas e saciar a fome com belas massas e os que são confinados em uma dieta de morte. Em um país rico como o Brasil e em um estado que produz o que São Paulo produz, este é um ataque não só aos que serão alvo desta política mas a nossa dignidade. Tive de parar e escrever este texto, porque existem aquelas situações limite. Aquelas que a todos humilham. Se empresas de São Paulo já doam alimentos, sem descaracterizá-los, se projetos valorizam o ato da alimentação, por que a opção pelo formato granulado? Porque não bastava atacar os moradores de rua tirando-lhes os cobertores, porque não bastava atacar a arte de rua, pintando tudo de cinza. Era preciso o último ato: explicitar ao Brasil o que o prefeito pensa da população submetida a esta política. De ódio. De guerra aos pobres, de espetáculo, de má-fé. Dória não pode garantir o que vai compor esta ração, não pode garantir a qualidade do processo complexo que envolve o deslocamento, armazenamento e transformação destes alimentos. Ele deveria ser processado. E junto com os alimentos, virar granulado para aqueles que apóiam sua gestão.

De minha parte, sigo defendendo arroz, feijão, legumes, mandioca, tudo isto no prato. E ração para o prefeito, seus secretários e para o pessoal da Monsanto.

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Autor

Luciane Soares da Silva
Luciane Soares da Silva

Luciane Soares da Silva, gaúcha de Porto Alegre, alvinegra de coração, colorada por tradição. Negra, bisneta de alemães, neta de sambista estivador. Professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e presidente da ADUENF. Tem estudado racismo, favela e cultura urbana. Temas de seu interesse e sobre os quais desenvolve pesquisas.

Aos leitores
Pretendo escrever sobre cultura urbana e juventude com atenção especial à temática dos direitos humanos no Brasil.

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