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“Negacionistas, não passarão! “

“Negacionistas, não passarão! “

Por André Nunes*

Não lembro exatamente quando ouvi pela primeira vez sobre o “negacionismo” do Holocausto. Provavelmente foi no ensino médio. Não conseguia entender como um dos maiores genocídios da História, ainda tão próximo temporalmente, pudesse ser contestado por grupos de teóricos. Esse movimento, por assim dizer, não só existe como resultou num julgamento por difamação que ocupou as manchetes britânicas no final dos anos 1990, retratado no longa Negação, de Mick Jackson, que acaba de estrear no Brasil.

Ainda acho difícil entender sobre o “negacionismo”. Não a toa, o filme começa com uma breve explanação sobre o assunto, feita pela professora Deborah Lipstadt (Rachel Weisz, em ótima atuação) a uma turma da faculdade. Basicamente, os “negacionistas” se baseiam em quatro pilares (segundo suas convicções):

1 – Os nazistas não teriam uma política oficial ou intenção de exterminar os judeus;

2 – Não haveria provas de que os nazistas utilizaram câmaras de gás para o assassinato em massa de judeus nos campos de concentração;

3 – A soma de 5 a 6 milhões de mortes de judeus seria exageradamente alta;

4 – Histórias sobre o Holocausto seriam um mito para angariar simpatia na criação do Estado de Israel e, com isso, assegurar o apoio mundial à causa judaica.

Absurdo, não? Eis o mérito do roteiro de Negação: ao ser processada por difamação pelo escritor britânico David Irving (Timothy Spall, irreconhecivelmente magro para quem o viu em filmes como O Discurso do Rei e a saga Harry Potter), Deborah Lipstadt é levada a provar na Justiça que está certa nas ponderações que fez sobre Irving em um livro de sua autoria.

Nisso surge a dúvida: ela é processada e precisa provar sua inocência? Ao contrário da justiça brasileira e americana, em que há presunção da inocência do réu até que se prove o contrário, os tribunais britânicos entendem de forma inversa.

Tem início, assim, um longo processo de defesa de Lipstadt pela brilhante equipe de advogados encabeçada por Anthony Julius (Andrew Scott, de Sherlock) e Richard Rampton (Tom Wilkinson, brilhante como sempre) que, entre outros clientes famosos, defendeu a princesa Diana em seu processo de divórcio.

Sem entrar nas minúcias do processo e no desenrolar do roteiro de David Hare (adaptado da obra History on Trial: My Day in Court with a Holocaust Denier, escrita pela própria Lipstadt), a discussão levantada pelo filme é extremamente pertinente no contexto mundial em que vivemos: até que ponto a defesa do que é correto historicamente pode ser feita sem que, indiretamente, acabe dando forças e incentivando movimentos reacionários e extremistas?

Nesses aspectos, o limiar é tênue e a luta é diária. Como lidar com seguidores de Donald Trump, Marine Le Pen ou Jair Bolsonaro sem que, no processo, acabemos reforçando o quão extremas e deletérias são suas formas de agir e pensar?

Uma opção é, a exemplo da estratégia da defesa de Lipstadt, focar no cerne da questão: o indivíduo ou grupo extremista Assim, o Holocausto, suas vítimas e sobreviventes foram resguardados de uma exposição no tribunal – já que uma estratégia imediata seria chamá-los como testemunhas – afinal o que estava em jogo era a suposta difamação de Irving: se ele deliberadamente mentia em suas publicações e discursos, de acordo com suas convicções, era o que merecia ser provado perante o juiz. E é o que acaba acontecendo, eventualmente.

Lançado no Festival de Toronto do ano passado, com avaliações positivas da crítica e uma indicação ao BAFTA de Melhor Filme Britânico, Negação passa a impressão de que poderia ter sido mais grandiloquente – especialmente em um diálogo inicial de Deborah que, sendo judia, justifica a escolha de seu nome por sua mãe como numa premonição de seu futuro como “líder e guerreira” na defesa de seu povo.

O balanço, porém, é positivo para o longa: ao apresentar um debate teórico tão complexo como esse, “menos é mais”. Talvez um filme carregado com as tintas melodramáticas de um Spielberg, por exemplo, não entregasse a mensagem da forma como ela merece ser vista pelo público.

Para resumir em uma palavra de ordem: “negacionistas, não passarão!”.

Negação (Denial, 2016)

Direção: Mick Jackson

Elenco: Rachel Weisz, Tom Wilkinson, Timothy Spall e Andrew Scott

Nota: 3,5/5

André Nunes, formado em Jornalismo pela UFPR, com passagem pela Université Stendhal, na França. É analista de comunicação na NQM Comunicação. Viciado em séries e cinéfilo, escreve sobre cinema nas horas vagas.

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