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Saúde mental indígena em pauta

Saúde mental indígena em pauta

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Por Viviane Tavares – Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)
Seminário sobre a temática questiona modelos de cuidado da população indígena.
“É preciso criar um novo campo na psicologia”. Esta foi a frase mais ecoada durante o I Seminário Psicologia dos Povos Indígenas e Direitos Humanos da Região Norte, que aconteceu no dia 4 de setembro e fez parte da programação do 4º Congresso de Saúde Mental, realizado em Manaus (AM). O encontro questionou o modelo atual de cuidado e lembrou das práticas presentes antes da reforma psiquiátrica, além de indicar caminhos de mudança neste campo.
Na primeira atividade do dia, a mesa de abertura “Povos Indígenas, Políticas Públicas e Psicologia”, o psicólogo e coordenador do Programa de Saúde Mental Indígena da Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai-MS), Lucas da Silva Nóbrega, informou que é preciso mais sensibilidade nas questões relacionadas à saúde mental indígena. Para ele, ainda é presente a atuação colonizadora em relação à cultura dos povos indígenas. “Temos que ter cuidado para não deslegitimar o diferente e lembrar que estamos em uma relação de poder”, explicou e contou: “Quando fui explicar o que faz o psicólogo, por exemplo, tentei falar que é o cuidado daquilo que não é do corpo, e eles falaram que esse já era o papel do pajé e me questionaram se eu tinha a intenção de substituir o pajé”.

Ele lembrou também de um caso em que a pessoa que estava recebendo cuidados queria falar com o pajé. “Deslocamos um pajé para ajudar nesse cuidado, porque entendemos que devemos valorizar os saberes destes povos, e não chegar com a nossa ciência impondo posturas”, destacou. O coordenador do Programa de Saúde Mental Indígena lembrou ainda que a Portaria 2759/2007 endossa essa prática e propõe que os indígenas tenham apoio em suas tecnologias sociais para lidar com seus próprios problemas.

O antropólogo social João Paulo Tukano disse que um dos grandes problemas atuais é a questão do suicídio que, para ele, dever ser encarado com sensibilidade, afeto e vínculo com o povo e o território. “Precisamos entender o sentido da morte. Não adianta você pegar um índio e colocar em um consultório para ele falar o que está sentindo. Devemos fazer psicologia tomando banho de rio”, indicou e informou: “Hoje tem muita doença de branco acometendo os indígenas, como a depressão, mas é preciso saber contextualizar esses problemas e entender que são formas de encarar o mundo de maneira diferente. Hoje sequer temos um hospital indígena e os nossos povos estão a cada dia mais tomando medicamentos. Por que índio tem tomado tanto remédio se tem seus saberes que vem da natureza?”, questionou.

Tukano lembrou ainda que, atualmente, há diversas ações com o intuito de interculturalidade, mas que, na verdade, são a tradução da cultura ocidental para a cultura indígena. “O que meu pai me ensina não é considerado teoria, mas criam a etnomatemática, etnociência, que é adaptar o conhecimento do branco para eu aprender. Só são consideradas as teorias que são objetivas, que tem provas, mas isso não serve pra gente”, explicou.

Na parte da tarde, a mesa redonda “Direitos Humanos, Políticas Públicas e Educação Indígena” questionou também o modelo de educação para essa população e o modelo de desenvolvimento apresentado hoje. “No mundo indígena, saúde e educação vem juntos. Qualquer doença começa no espírito, porque é resultado de desarmonia entre si, com a natureza e com o mundo”, lembrou o indigenista e coordenador do Comitê Estadual da Verdade do Amazonas, Gersem Baniwa. O pesquisador da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Edson de Oliveira, também compondo a mesa, lembrou ainda que quando dependem do campo emocional, as pessoas podem ficar fragilizadas ou fortalecidas. “Temos o costume de atomizar tudo, diferentemente dos indígenas que tem uma visão mais holística dos problemas. Precisamos, portanto, construir uma nova mentalidade, uma nova maneira de pensar para compreender nosso papel nesse jogo de relações. Não adianta ficar em uma psicologia reducionista, se os indígenas não têm onde morar”, enfatizou.

Para Baniwa, a sociedade do jeito que está posta não consegue entender a cultura indígena porque está fundada na desigualdade. “Precisamos acabar com essa mentalidade dominadora que tem como intuito exterminar os indígenas. Já foram encontrados documentos que mostram que nas décadas de 1960 e 1970 a meta era exterminar os indígenas. O plano era que não tivesse nenhum nos anos 2000. Ou eram mortos ou eram incorporados à cultura ocidental”, lembrou.

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