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LGBTfobia passa… passa por nós, todos os dias.

LGBTfobia passa… passa por nós, todos os dias.

Luiz Ulian presenciou uma agressão, neste domingo, após a Parada LGBT, no metrô em São Paulo. Segundo seu relato, tudo começou com uma tentativa de suicídio e continuou com as agressões homofóbicas dentro do vagão. A denúncia foi feita no perfil do facebook de Luiz e segue abaixo.

 

“ALERTA TEXTÃO: Violência homofóbica

Domingo, fim da Parada LGBT. Eram pouco mais de 22h30. Eu esperava o metrô na estação República, da linha 3 – vermelha. Ao meu lado, um menino. Chorando, meio deprimido. Atrás dele, um grupo de amigos seus. O metrô vem chegando. O menino chega no limiar da linha e se prepara pra pular. Um dos amigos dele o puxa pela roupa e o afasta da linha. O metrô para, as portas abrem, o grupo entra, e eu entro atrás, ainda trêmulo por quase ter presenciado um suicídio. O menino, visivelmente bêbado, chora muito, e compartilha os problemas da vida com os amigos. Ele falava alto, o que chamou a atenção das pessoas dentro do metrô para o grupo. O menino, gay, acompanhado de mais um menino, duas meninas e uma pessoa trans.

Por ser um dia específico, em que muitas pessoas LGBT retornavam para casa, o metrô contou com a presença de bastante gente da comunidade. Apesar disso, conforme a linha acabava, o metrô esvaziava, e até mesmo por conta da hora, o predomínio de gente lá dentro acabou por ser de pessoas cis heterossexuais. Pessoas essas que se detiveram no grupo que chamava a atenção naquele momento.

Por volta das 23h, na altura das estações Penha e Vila Matilde, começa a violência. Eu estava de pé no metrô; o menino e seu grupo, ao meu lado; atrás de mim, um homem, cis hétero. Em dado momento, o menino encosta sem querer no homem atrás de mim, meio que um pisão de pé. O homem o repele e diz: “Não encosta em mim!”. O menino pede desculpas, e as ofensas homofóbicas começam. O homem diz: “Cê tava indo pegar na minha bola!”. O menino segura firme e responde tudo à altura. Depois de uma troca de verbo, o menino solta a frase: “Cê não me julgue pela roupa! Cê não me julgue pela capa!” (ele vestia um macacão curtinho e estava com as unhas pintadas). O homem responde: “Ah é? Desculpa então”. Uns segundos de silêncio. O homem, que se apoiava no ferro superior do metrô, se pendura no ferro, faz impulso para cima e se projeta na direção do menino, golpeando as costas dele com as pernas. O menino voa para o chão. Nessa hora, eu pego o braço do cara e puxo ele. Solto um “Cê não toca nele!”, e continuo puxando ele pra longe, quando o grupo de amigos do menino vem pra cima também. Todos seguramos o cara por alguns segundos. O menino se levanta e vem em direção ao homem, para brigar. O homem consegue se desvencilhar da gente e corre para longe no vagão. Eu grito: “Segura o cara, pega o cara, ele é homofóbico”. Nisso, um grupo de homens, héteros cis, se aproximam do cara, mas ao invés de segurá-lo, juntam-se a ele e vem na nossa direção, proferindo ofensas. Nessa hora, começa um jogo de corpos bizarro entre os homens héteros e os (poucos) LGBT no vagão. O metrô está parado na estação Guilhermina Esperança. O menino, seu grupo, e o agressor saem para a plataforma, na base dos socos, dos chutes e dos xingamentos. As portas fecham, e eu fico dentro do metrô. Os homens que ficaram dentro, então, vem pra cima de mim, proferindo ofensas e se agrupando ao meu redor (cerca de 7 homens). Eu ouvi merda. Muita merda mesmo. Respondi algumas merdas, mas conforme o cerco se fechava, eu fraquejei, comecei a gaguejar e as palavras me escaparam. Ouvi, ao fim, um “Tá com medo, viado?”. Eu realmente estava. Só olhei para um outro menino, que estava no vagão, me desvencilhei em silêncio e fui até ele. Descemos na estação Artur Alvim, e nos abraçamos. Cada um seguiu um caminho, mas minha cabeça ficou no menino que havia apanhado. Um menino que, menos de 20 minutos depois de tentar suicídio, sofrera aquela agressão grave, horrível, claramente motivada por homofobia.

Cheguei em casa. Meu pai me esperava na calçada. Estava preocupado comigo. E me dói demais… demais… saber que a preocupação dele faz sentido. Quero poder olhar para ele um dia e dizer: Nada vai acontecer, fique tranquilo.

Não posso fazer isso ainda.

Passei uma noite perturbadora, assustado com o que vi e vivi. Hoje, ao acordar, fui à busca de notícias. Nas mídias, nada. Fui até a estação Guilhermina Esperança. O funcionário me disse: “Houve uma briga aqui ontem sim. Mas a gente não podia intervir porque não somos da Segurança, e não tinha ninguém da Segurança na estação ontem”. Questionei a ausência de seguranças, e perguntei o que poderia ser feito à respeito de tudo que houve. Sai de lá com gosto ruim na boca. Sensação de impotência horrível. Não tinha muito que fazer: não tinha acesso ao menino, não tinha acesso às imagens, não tinha acesso a nada. Só conseguia pensar no absurdo que era a ausência de segurança nas estações. O menino poderia estar morto agora. Ou pode. Eu não sei, porque ninguém sabe o que aconteceu depois. No metrô de São Paulo é fácil xingar, abusar, agredir, matar. O caso da estação Pedro II, também motivado por LGBTfobia, relembra-nos bem. Da estação para fora, então…

Enfim. Eu precisava relatar este caso. Dar voz a essa violência calada. Em termos de mobilização, a luta continua. Casos como esses nos rememoram a importância de eventos como a Parada LGBT. Mas ela não é suficiente. A luta é todo dia. E agora a próxima demanda talvez seja pressionar por mais segurança nas estações de trem e metrô. Um serviço caríssimo como esse PRECISA mobilizar esforços para garantir a integridade das pessoas que fazem uso dele, levando sempre em consideração os casos e vulnerabilidades específicas (porra, NENHUM segurança em pleno dia de Parada LGBT, cara!). As pessoas precisam de segurança, integridade, dignidade. Pessoas pertencentes a minorias precisam de cuidados redobrados, nesse sentido.

Pra quem acha que homofobia não existe, ou que “agora tá mais tranquilo”… fiquem de olho. Pelo menos. Principalmente pessoas LGBT que acham que militância não é uma coisa importante. Fiquemos de olho, mobilizem-nos. Bora fazer alguma coisa.

A gente precisa viver, e vai viver. E amar. E fazer tudo que merecemos.

P.S.: Rezem, mandem boas energias para o menino… alguém que não sei o nome, mas que quero demais que esteja vivo e bem.”

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