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“Em tempo de climas extremos, nenhum cenário é tão horripilante quanto a realidade”

“Em tempo de climas extremos, nenhum cenário é tão horripilante quanto a realidade”

Para o físico Alexandre Costa, a atual crise climática está diretamente atrelada ao atual modelo de desenvolvimento

Professor titular da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Phd em Ciências Atmosféricas, o físico Alexandre Costa é daqueles militantes, tal qual Dom Quixote de La Mancha, que enfrentam gigantes em suas batalhas. No entanto, aqui, os gigantes não são projeções de moinhos de vento, mas monstros imensos como as indústrias petroquímicas e o agronegócio. Consciente de que não há sustentabilidade no capitalismo, Alexandre denuncia a crise climática e afirma a urgência de uma mudança radical no modelo de produção, como única garantia de permanência da vida no planeta. Confira mais na entrevista a seguir.

 

Professor Alexandre Costa em palestra | Foto: Lua Alencar

Professor Alexandre Costa em palestra | Foto: Lua Alencar

Entrevista realizada por Livino Neto e publicada na edição 35 da Revista Vírus (confira aqui)

 

Agora em novembro tivemos, paralelamente à COP20, em Lima, a Realização da Cúpula dos Povos por Mudanças Climáticas, com ações no mundo todo. Qual a importância de se estabelecer uma agenda pública de base popular para debater as mudanças climáticas?

Alexandre Costa: O contexto da organização popular no sentido de pressionar os governos por acordos climáticos me parece muito claro, necessário e urgente. Do ponto de vista científico, se trata de uma questão plenamente resolvida: em 1988 a ONU organizou um painel de especialistas, o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que reuniu especialistas de todo o mundo, elencando uma vasta literatura científica e fomentando pesquisas. Estes dados foram analisados conjuntamente e subsidiaram a elaboração de relatórios com o objetivo, desde o início, de responder às questões lançadas pela ONU nos anos 80: “A humanidade está afetando o clima? Em que sentido? Isto é perigoso?”.
As respostas hoje são absolutamente claras. Desde o terceiro relatório, de 2001, a conclusão inequívoca é que a humanidade é responsável por mudanças no clima, sendo o maior contribuinte para estas mudanças, em especial através da queima de combustíveis fósseis. A percepção que temos é de aquecimento global, ou seja, o planeta está se aquecendo em taxas inéditas, o que acarreta grandes riscos.

 

10De que riscos estamos falando?

Alexandre: Chegou-se à conclusão que o valor 350 partes por milhão de CO2 na atmosfera acarretaria, em médio e longo prazo, o valor de aquecimento global de 1 grau Celsius, que é tido como o limiar seguro para os ecossistemas sem disparar processos acelerados de degradação de biomas e mudanças cada vez mais rápidas e catastróficas. Esse limite foi ultrapassado em 1988. Desde o ano de 2014, estamos flertando com 400 partes por milhão e daqui a um ano ou dois a média anual deve ultrapassar 400 partes por milhão. Se continuarmos mantendo a taxa de emissão de CO2 como está, rapidamente chegaremos a 450 partes por milhão, que seria um limite de perigo. Depois disso vem os limites de catástrofe, que são de 500 a 600 partes por milhão. No ritmo em que estamos, chegaremos a 600 facilmente no começo da segunda metade deste século, o que resultaria no derretimento do gelo da Antártida, ocasionando um aumento do nível dos oceanos em 64 metros. Este cenário representaria o fim de todas as grandes cidades do litoral brasileiro, a Bacia Amazônica viraria uma gigantesca baía, nos Estados Unidos se daria adeus a Nova York e a todo o estado da Florida, além de inúmeros outros impactos como secas mais severas e furacões mais intensos. Seria literalmente outro planeta.

 

Podemos então entender o número de 450 partes por milhão como uma espécie de “linha de morte”?

Alexandre: Imagine se colocarmos um objeto na beira de um morro e uma pequena perturbação é capaz de derrubá-lo ladeira abaixo, sem qualquer empurrão nosso. Isso seria mais ou menos o que representa 450 partes por milhão de concentração de CO2. 450 partes por milhão implicam em um aquecimento, a médio e longo prazo, de 2 graus, o que se vislumbra representar dois terços de chance de chegarmos a uma situação irreversível. Eu jamais apostaria minha vida tendo apenas dois terços de chance de mantê-la, e o pior é que a humanidade, objetivamente, nem sequer está mirando para isso. Pelo contrário, se você pegar as emissões de CO2 recentes e comparar com os cenários previstos pelo IPCC, estamos acima do pior cenário previsto, ou seja, nem o mais pessimista dos grupos de pesquisa que contribuíram com o IPCC, no seu quinto relatório, foi capaz de reproduzir um cenário tão horripilante como a realidade.

Então, no quadro atual, apesar de necessário e urgente, imaginar a redução de CO2 seria praticamente um sonho…

Não reduzir seria um pesadelo. Quem precisa parar de sonhar são aqueles que acham que não haverá consequências, é preciso acabar com essa ilusão. Eu sei que é difícil, especialmente por que há um forte interesse econômico em jogo, estamos falando do lobby da indústria petroquímica. A Chevron movimenta meio trilhão de dólares por ano, o que representa um PIB da ordem do da Noruega; a Exxon movimenta outros US$430 bilhões, o que representaria quase o PIB da Argentina. Da lista de empresas de combustíveis fósseis e das empresas automobilísticas – que não estão interessadas em reduzir a emissão de CO2 –, basta 13 delas para ultrapassar o PIB alemão. Trata-se de muito poder concentrado em pouquíssimas mãos.

Essas empresas também estão intrinsecamente ligadas aos interesses dos bancos; existem representantes dos conselhos deliberativos de bancos nas petroquímicas e vice-versa, às vezes participando em empresas supostamente concorrentes. Se o capital financeiro é a máquina para concentrar e distribuir dinheiro para fazerem seus “investimentos”, as empresas petroquímicas e as mineradoras de carvão são o coração energético do capitalismo.
A humanidade tem apenas duas opções: ou para essa loucura, esse desvario, por bem, de forma pensada e controlada, ou vai parar por mal, que no limite seria a extinção da espécie humana. Nós temos, sim, o poder de transformar a Terra em um planeta inabitável, mas antes disso ela ficará inóspita; secas como as que estão acontecendo, ao mesmo tempo, no Sudeste e Nordeste do Brasil, na China, na Califórnia, na Austrália, são apenas o começo.

 

Qual o papel que o Brasil ocupa neste quadro e como o modelo de desenvolvimento econômico proposto para o país se relaciona com estes eventos?
Alexandre O Brasil, historicamente, sempre foi um grande emissor do efeito estufa graças a uma peculiaridade: sua grande extensão e o avanço da fronteira agrícola. Os desmatamentos, em todas as suas formas, colocaram o Brasil entre os principais emissores de CO2. Há 20 anos, três quartos das emissões estavam relacionados a isso, e o outro um quarto estava relacionado às fontes de emissões mais típicas de países mais desenvolvidos, como queima de combustível por transporte rodoviário, a geração de energia por termoelétricas a carvão ou gás natural – o Brasil, até pouco tempo atrás, não tinha termoelétricas em sua matriz; a produção era através de hidroelétricas – e outros fatores como a produção de cimento.

Acontece que o Brasil, especialmente na última década e meia, mudou esta relação. A contribuição à emissão de gás por desmatamento é menos da metade. É ponto pacífico que o desmatamento caiu, basicamente pela restrição de crédito, e isto fez com que o Brasil até aparecesse “bem na fita” no plano internacional. No que diz respeito às negociações sobre as mudanças climáticas, o Lula disse “nós temos um plano de mudanças climáticas, “vamos reduzir as emissões de gazes do efeito estufa em 37%”. Mas ele foi esperto aí, pois já estavam previstas as medidas de contenção de crédito para os desmatadores e, de fato, as emissões caíram em algo muito próximo do que o Lula anunciou. Só que essa redução voluntária escondeu a crueldade de vários processos: as emissões associadas à agricultura, como o crescimento do rebanho bovino, que fez com que a emissão de metano pelo Brasil crescesse; as emissões de óxido nitroso, que se devem essencialmente à decomposição de fertilizantes nitrogenados – utilizados pela produção em massa do agronegócio – também cresceram. O agronegócio foi uma das fontes de emissão que avançaram.

Outra fonte foi a indústria automobilística, que duplica a cada dez anos, exercendo uma pressão muito grande sobre as emissões brasileiras. Por último, mas não menos importante, a matriz energética; a composição da matriz energética brasileira tem mudado de forma muito clara: durante o governo FHC, quando aconteceu o episódio do apagão, uma das políticas adotadas foi um programa de incentivo às termoelétricas.

Este programa foi colocado em prática com financiamentos do BNDS, com subsídios, com garantia de pagamento da energia gerada – as térmicas são muito caras, é um mito dizer que termoelétrica gera uma energia barata –, isso tudo feito sem computar os danos climáticos e ambientais. Na hora em que se coloca isso, em que se aplica as externalidades – para uma usar uma palavra palatável até aos ecocapitalistas – como mecanismos de mercado, as energias fósseis se tornam impossíveis de serem bancadas.

Com isso, o Brasil cresceu justamente naquelas emissões que são mais difíceis de se reduzir. Chegamos até onde poderíamos cortar de emissões via desmatamento, até porque, com a pressão do agronegócio, dos ruralistas, o código florestal foi desmontado e devemos fechar 2014 como o segundo ano consecutivo de retomada do crescimento do desmatamento. As outras emissões devem crescer de forma ainda mais clara, o que tem relação com o modelo de desenvolvimento, no país como um todo. Isso o leitor da Vírus Planetário vai poder verificar em cada Estado.

 

No que o Brasil passou a apostar?

Alexandre: Primeiro em produtos agrícolas para exportação. Eu, sinceramente, sinto vergonha cada vez que a Dilma vai a público se orgulhar dos recordes de exportação de soja e de carne bovina. É absurdo: além do desmatamento, da emissão de gases do efeito estufa, o agronegócio consome 70 % da água doce disponível, sendo completamente diferente das culturas tradicionais da agricultura familiar.

Outro ponto é que as termoelétricas continuam aí. O Brasil está apostando em exportação e produção de alumínio e aço, que demandam uma quantidade absurda de energia e água; o paradigma do modelo energético brasileiro é aumentar brutalmente a oferta para atender essa nova demanda. Essa catástrofe se articula com outras, por exemplo, a termoelétrica do complexo industrial do Pecém, no Ceará, foi construída em função da montagem de outras empresas do complexo, incluindo a siderúrgica. A termoelétrica terá que funcionar a todo vapor para atender à demanda energética. Com isso ela deve consumir 993 litros de água a cada segundo; essa concessão foi dada a vários anos, mas, além dessa benesse, foi concedido há três anos, o desconto do preço da água bruta. Em vez dessa água ir para as torneiras de milhares de cearenses, ela vai alimentar uma grande empresa. Para se ter uma ideia, 993 litros de água a cada segundo significam 5 caminhões-pipa por minuto; só essa termoelétrica consome 70% do Açude Gavião em um ano. Mas, como o objetivo principal da termo é gerar energia para a siderúrgica, podemos somar os monstros: a siderúrgica, para cada tonelada de aço, vai requerer que se gaste 280 mil litros de água e se emita uma tonelada de CO2, que vai se somar à quantidade brutal de CO2 emitido pela termoelétrica. Isto significa uma política completamente fora da realidade, onde se rouba duplamente a água! Afinal, as mudanças climáticas já estão trazendo secas mais severas.

 

De que forma a emissão de CO2 impacta nas secas que temos vivenciados no Nordeste, São Paulo e Minas Gerais?

Alexandre: 
Uma atmosfera mais quente é capaz de conter mais vapor d´agua; sendo um reservatório maior, o que a atmosfera faz? Ela é uma espécie de reservatório que faz com que a água se recicle. A água evapora, vai para a atmosfera em forma de vapor, o vapor se condensa formando nuvens e as nuvens produzem chuva. Imagine que a atmosfera é um reservatório, um balde, que guarda a água que se evapora; quando você aquece a água, é como se trocasse um balde pequeno por um grande. Com o balde pequeno, a água que evapora enche o balde logo; no período de seca, o tempo necessário para fazer a água evaporar é maior. Se o balde é grande a catástrofe é dupla, primeiro porque você vai precisar de um período maior para encher o balde, ou seja, mais tempo de seca; segundo porque, tendo um reservatório de água maior, quando a chuva vem, ela vem de uma vez. O que estamos assistindo no Nordeste, que vai muito provavelmente para o seu quarto ano consecutivo de seca, não vai ser exceção, vai ser regra. O que se está vendo no Sudeste, em Minas Gerais, secando a nascente do São Francisco, não vai ser exceção, vai ser regra. A Amazônia tem alternado entre secas recordes e enchentes recordes, nunca mais esteve no normal. É sempre o clima dos extremos.

Qual a alternativa para reverter o atual quadro no país?
Alexandre: Nós precisamos ter uma política hídrica de acordo com o futuro que nos espera, além de precisarmos diminuir as emissões para que o problema não se agrave muito mais do que está hoje. Nós vamos precisar ter um uso correto da água: não dá para colocar entre 60 e 70% da água no agronegócio, 20 a 30% na indústria pesada e apenas 10% ser para o consumo humano; esses setores econômicos não podem continuar com esse uso perdulário da água doce.

Não há água para todos, precisamos garantir a água para quem realmente precisa dela, não para quem transforma a água em mecanismo de lucro. Para termos água em nossas torneiras precisamos fechar a torneira desse pessoal; afinal, estamos enfrentando um duplo roubo de água: roubam água ao longo prazo e em grande escala ao emitir CO2, e roubam água ao usá-la diretamente nos processos industriais de geração de energia. Precisamos atacar nas duas frentes e reverter completamente o modelo de desenvolvimento que o Brasil, e praticamente a maioria dos países do mundo, têm optado por seguir.

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