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Colunistas

Por Caio Almendra O caso das empreiteiras da Lava-Jato já começa a afetar nossa economia negativamente. Dia desses, passei por uma rua famosa pelos seus restaurantes e eles estavam fechando, vários cartazes de "Passo o ponto" e coisas assim. Diversos empregos perdidos. Tudo por causa...

Dia 22/04, nas bandas de cá, é a data tradicionalmente dedicada ao “descobrimento do Brasil”, ou seja, à invasão portuguesa. Mas desde 1970 é também o “Dia da Terra” o que, contradizendo a própria colonização das Américas pelos europeus (um dos eventos da história humana...

   

“A todo inimigo da fauna, da flora

Àquele que promove a poluição

Aos donos do dinheiro, a quem nos devora

Aos ratos e gatunos de toda nação

Sim, vai pra toda essa gente ruim

Meu desprezo, e será sempre assim

Já não temos nenhuma ilusão”

(Alceu Valença)

  Colocando Shrek de lado (em certa medida), ogros são seres lendários de uma brutalidade e violência descomunal, fortes e devoradores de carne humana. Já a expressão “ogro filantropo” foi cunhada por Octavio Paz, escritor mexicano, prêmio Nobel de literatura, num texto em que critica as estruturas políticas na América Latina. Mas o termo bem que pode ser usado para designar as grandes corporações dos setores econômicos mais destrutivos e poluentes e mais violentos (mineração, energia, petróleo, agronegócio etc.) quando estas associam suas marcas a ações socioambientais. Em algumas situações, há – é verdade – projetos reais bancados com dinheiro dessas empresas. Em outras, é claro, as movimentações não passam de manipulação e propaganda descarada. Mas ainda que haja pessoas de boa fé que trabalhem em projetos ambientais/sociais dentro dessas empresas; ainda que haja organizações que usem de maneira totalmente correta os recursos que tais empresas aportam para esses projetos; ainda que ambientalistas e pessoas de comunidades se envolvam com total boa vontade neles; é preciso constatar os limites profundos, mesmo dos projetos maiores, com mais recursos. Um dos mais conhecidos projetos conservacionistas do Brasil é o Tamar, criado há quase quatro décadas. A Petrobrás é a principal patrocinadora do projeto, mas alguém em sã consciência é capaz de questionar que – via não apenas a prospecção e exploração de petróleo e gás no oceano, mas provavelmente mais ainda via aquecimento global e acidificação oceânica – essa indústria fez, ao longo desse período, muito mais mal do que bem à vida marinha? Uma situação talvez mais gritante, porque revelou subitamente a imensa contradição que ela guardava, é a da Vale. A empresa associou sistematicamente a sua imagem à do Instituto Terra e os programas por este desenvolvidos de recuperação da cobertura vegetal da Mata Atlântica e de nascentes de rios em Minas Gerais. Como se sabe, quase que instantaneamente, em 5 de novembro de 2015, um estrago muito maior adveio em decorrência de um dos maiores crimes ambientais da história, comparável a Tchernobyl ou Exxon-Valdez, cometido pela Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP australiana. Nada menos que 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos soterrou Bento Rodrigues, em Mariana e tingiu o Rio Doce de lama de mineração (um volume tão formidável que se fosse de água potável seria suficiente para abastecer o município por mais de duas décadas!). Mas voltemos ao caso da Petrobrás. Aqui mesmo no Nordeste, a empresa se vangloria de ter sido patrocinadora de um projeto cujo objetivo seria recuperar áreas de caatinga, incluindo capturar de 12 mil toneladas de CO2 e (supostamente) evitar a emissão de outras 152 mil. Isoladamente, os números podem impressionar, mas se tornam minúsculos quando os comparamos às emissões da própria Petrobrás (diretas e indiretas, incluindo as da queima dos combustíveis por ela produzidos), cujo total chega a impressionantes 562 milhões de toneladas de CO2-equivalente.  Neste caso, por mais legítimo que tenha sido o envolvimento dos que se dedicaram ao projeto de recuperação da caatinga, por mais que os números sejam fidedignos, ainda que consideremos os demais aspectos - biodiversidade e trabalho junto às comunidades -, no que tange ao aspecto central do projeto (mitigação de mudanças climáticas(, a frieza dos números é implacável: a relação entre as emissões gigantescas da Petrobrás (equivalentes a mais de 30% das emissões brasileiras totais naquele ano!) e o carbono capturado no projeto é de 46 mil e oitocentos para um. E não esqueçamos: o semiárido nordestino, tendo completado cinco anos de seca recorde, já está sentindo os efeitos do aquecimento global. Mais uma vez o estrago do CO2 lançado na atmosfera pela Petrobrás e pela queima dos seus produtos já é muito maior do que os benefícios pontuais que ela patrocinou em algumas reservas e comunidades da região. Em tempo: soube que esse patrocínio, assim como muitos outros, foi simplesmente suspenso nos últimos dois anos. Outro caso, este bastante recente, se deu na própria Bienal do Livro em Fortaleza, no stand dedicado aos “povos indígenas”, em que o logo do patrocinador ocupava um espaço desproporcionalmente grande. E quem é? Nada menos do que a Enel, empresa que aqui no Ceará controla a distribuidora de eletricidade e uma termelétrica a gás (a antiga CGTF). No mundo, essa companhia é nada menos do que a 82ª em vendas e uma das 300 maiores em lucro líquido. Quem visita o site da empresa vê energia eólica e solar, mas boa parte desse lucro na verdade veio e continua a vir de fontes fósseis de energia e da exploração de sua distribuição (54,6%, pra ser mais exato, segundo dados da própria Enel). Globalmente, ela emite nada menos que 119,5 milhões de toneladas de CO2, quase o dobro de todos os automóveis do Brasil (62,6 milhões de toneladas de CO2 em 2015, segundo o SEEG) e admite que suas emissões cresceram de 2014 para 2015. Importante dizer: além das térmicas fósseis, ela também é dona de usinas nucleares. Justamente no Ceará, ao adquirirem a Coelce privatizada e por já possuir uma termelétrica a gás, a Enel gera eletricidade suja, poluente (emite 2 milhões de toneladas de CO2 por ano), que consome grande quantidade de água (outorga de 19,8 milhões de litros de água por dia) e que ela mesma distribui, cobrando caro, como se sabe. Soube que o custo de um stand na Bienal era de R$ 10 mil. Como essa companhia lucrou 76,9 bilhões de dólares ano passado (o equivalente a mais de 240 bilhões de reais), constatamos que ela cedeu 0,000004% do seu lucro para apoiar os indígenas cearenses Ora, o que uma corporação pagam num pequeno stand de uma bienal ou numa ou outra ação ecológica é troco de bala para ela. Os resultados ambientais práticos dessas iniciativas "verdes" são algo mínimo em comparação com o estrago que fazem. Não são amigos dos indígenas, dos cearenses, do povo. Pelo contrário, consomem nossa água e manipulam os bastidores da política para assegurarem benesses como renúncias fiscais, obras de infraestrutura etc., cujo custo recai sobre as maiorias sociais, comunidades locais e o ambiente. No caso específico, é ridículo que o Governo do Estado, num aparelho que é seu, como o Centro de Eventos, não tenha tido a vergonha de bancar - ele mesmo - um espaço muito melhor e muito maior, para abrigar os indígenas, ao invés de um pequeno stand no fundo da Bienal, com o logo de uma corporação suja como a Enel; segundo, é lamentável que as entidades e ONGs que trabalham a questão indígena por aqui tenham se deixado envolver. Antes de concluir, quero fazer uma ressalva. Não é que os/as biólogos/as envolvidos no Tamar, alguns/mas emocionalmente envolvidos de forma profunda no que fazem, ou os participantes dos plantios em nascentes da Mata Atlântica ou na Caatinga, muito menos os indígenas que aceitaram o apoio da Enel estejam sendo questionados em sua boa fé e dedicação à causa ambiental. De modo algum! É fundamental separar as coisas. Até porque muitas vezes é tudo o que essas pessoas podem fazer, às vezes é o único caminho que encontram (e assumo ser difícil encontrar o tom correto para não atingir justamente quem trabalha nesses projetos, em ONGs, pessoas que em sua grande maioria são companheiros/as deste lado da trincheira). Mas ao mesmo tempo não dá para calar, pois como diz a música de Alceu Valença, não se pode ter mesmo nenhuma ilusão. É preciso colocar o dedo na ferida. Ainda que pontual, temporária e/ou localmente determinadas comunidades, espécies e/ou biomas possam se favorecer desses projetos, é preciso refletir mais a fundo. É uma ilusão achar que se está protegendo Mata Atlântica, indígenas, caatinga, tartaruga marinha, Abrolhos, Amazônia no varejo... ao mesmo tempo em que o “ogro filantropo”, que destina alguns trocados a essas ações, continua a destruir, no atacado, o ambiente em todas as escalas, incluindo o clima global. Ainda que não houvesse nenhum "acidente", nenhum vazamento de petróleo, nenhum desabamento de barragem de rejeitos, nenhuma falha em reator nuclear, nenhuma contaminação de curso d'água por fluido de fracking; ainda que as atividades de tais indústrias funcionassem "perfeitamente", só a demanda de território, o acúmulo de gases de efeito estufa, lixo e rejeitos que geram já seriam suficientes para levar a biosfera terrestre, principalmente os biomas, espécies e comunidades mais frágeis, a um desastre comparável aos das cinco grandes extinções anteriores. Com o greenwashing, essas corporações têm a vida facilitada. Cooptam, neutralizam ou diminuem a combatividade de parte importante daqueles/as que poderiam estar se opondo às corporações em seu conjunto, ao mesmo tempo em que asseguram a simpatia da sociedade pela propaganda. E se o único produto final possível dessas indústrias assassinas é tornar a vida em geral cada vez mais difícil, vida fácil é tudo que não podemos lhes dar.

    Por Hamilton Octavio de Souza Ilustração: Ribs RENOVAÇÃO POLÍTICA Depois da avalanche de revelações sobre o esquema de corrupção que envolveu empresas construtoras e políticos de vários partidos, só resta à sociedade, especialmente aos trabalhadores e à juventude, exigir uma ampla e profunda reforma política que proíba todos...