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31 Bienal de SP: contradições em cena

31 Bienal de SP: contradições em cena

Por Juliana Piescobienal sp1Em sua primeira edição livre do fantasma da crise financeira (mas ainda assombrada por uma estrutura institucional anacrônica), a 31ª Bienal divide opiniões ao propor a discussão sobre as contradições e conflitos do mundo atual — os problemas sociais e políticos que fingimos que “não existem”.

O segundo maior e mais tradicional evento de arte contemporânea do mundo, há apenas alguns anos a Bienal de São Paulo estava com sua existência ameaçada: no início de 2012, os recursos da Fundação Bienal foram bloqueados por problemas em prestações de contas ao governo federal, o que quase resultou na cancelamento da 30ª edição.

Agora, sob o comando de uma equipe de curadores estrangeiros, a Bienal assume sua edição mais politizada desde a época da ditadura militar, com uma ênfase maior nos processos de criação do que nas obras finais.

Coisas que não existem

A 31ª Bienal foi construída em torno do enunciado “Como (…) de coisas que não existem”, variando o verbo da frase a cada nova construção. Assim, as “coisas que não existem” seriam faladas, sentidas, destruídas, pensadas, e assim por diante.

Dos textos da curadoria às declarações na coletiva de imprensa, transpareceu que as tais “coisas que não existem” seriam, na realidade, as coisas existentes que nossa sociedade prefere fingir que não existem. Ou seja, aquilo que dificilmente é falado ou pensado, que não permite uma abordagem objetiva — e que portanto seriam temas melhores explorados através do sensível, pelas artes.

A partir dessa premissa inicial, essa edição da Bienal se propôs a compreender a “realidade em transição” em que vivemos, dialogando com os paradoxos que constituem a nossa sociedade que vive (pelo menos em tese) um período de transformação acelerada pelos avanços tecnológicos e a quebra de paradigmas. Essa compreensão seria proposta através de outras “coisas que não existem” — o campo do sensorial e das emoções — usando a arte.

Assim, a equipe de curadores internacionais, composta por Charles Esche, Galit Eilat, Nuria Enguita Mayo, Pablo Lafuente e Oren Sagiv, junto com os curadores associados Benjamin Seroussi e Luiza Proença, selecionou artistas engajados com questões contemporâneas, com destaque para questões como o aborto, liberdade sexual e de identidade de gênero, política e repressão.

Sem dúvida, discutir as contradições do mundo contemporâneo é uma proposta bastante ambiciosa (ainda que louvável); se na prática foi cumprido, é outra discussão.bienal4

Sem dúvida, várias obras conseguiram problematizar questões atuais, com destaque para aquelas que teriam que ser “ativadas” através de performances ou de interação com o público. Ademais, vale lembrar que toda arte é política na medida que fornece um posicionamento acerca de questões que cercam o artista, através de uma linguagem que naturalmente rompe com o comodismo da sociedade.

Por outro lado, justamente por ser ambicioso, dificilmente o projeto da curadoria poderia ser alcançado em sua totalidade; a complexidade do tema não poderia ser esgotado, sobretudo em algumas de suas facetas. Outro problema encontrado é na seleção das obras de arte do protesto — afinal, esses trabalhos andam no limiar entre a política e a arte, devendo encontrar o equilíbrio ideal entre esses pólos que se complementam.

Aqui, vale destacar ainda outra particularidade da 31ª Bienal: o foco em projetos criados especialmente para a mostra, privilegiando o processo criativo e a produção em colaboração, acima do resultado final — uma estratégia que dividiu opiniões. Cerca de 60% das obras expostas foram criadas especialmente para a 31ª Bienal, sendo que muitas foram realizadas a partir de residências artísticas de estrangeiros no Brasil especialmente para esse fim.

Uma das justificativas para essa escolha foi de dar destaque para o “diálogo com a contemporaneidade”; porém, uma das críticas mais recorrentes à edição foi justamente a sensação de nostalgia, em especial pelas décadas de 1960 e 1970, sobretudo pela referência recorrentes às ditaduras militares na América Latina e outros temas caros do período.

Outra consequência do tema ambicioso foi a dificuldade de articular os temas com originalidade na linguagem expressiva. Como resultado, além de obras que recorreram a clichês ou soam panfletárias, muitas usavam de imagens e linguagens tão diretas que deixavam pouca margem para interpretação e para exploração através do sensível do espectador, enquanto outras ainda dependiam de explicações detalhadas para serem aproveitadas. No fino equilíbrio entre arte política e política instrumentalizando recursos artísticos, muitos artistas perderam-se em suas próprias mensagens, resultando em uma Bienal repetitiva e com poucos destaques.

Visitantes assistem a demolição do templo de Salomão no filme Inferno

Visitantes assistem a demolição do templo de Salomão no filme Inferno

Enquanto isso, setores mais conservadores da sociedade criticaram veementemente a 31ª Bienal pelo conteúdo das obras, e pela abordagem direta de pautas que preferiam que continuassem como coisas que (supostamente) “não existem”. A revista Veja, da editora Abril, soltou mais de uma matéria criticando o tom “panfletário e ideológico” da edição, enquanto o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (que recebe o nome do fundador do Família, Tradição e Propriedade) defendeu um boicote à Bienal, alegando que a 31ª edição estaria cheia de “aborto, blasfêmia e sacrilégio” e condenando especialmente o “incitamento à total legalização do aborto e uma promoção aberta do homossexualismo”.

A crise da Fundação Bienal

Cabe lembrar que essa edição marca o encerramento de um ciclo para a Fundação Bienal, que emerge da maior crise financeira e institucional desde sua fundação em 1951. A gravidade da situação veio a público na infame Bienal do Vazio de 2008. Porém, a real gravidade da situação foi evidenciada em 2012, quando os recursos captados via Lei Rouanet foram bloqueados por problemas em prestações de contas ao Ministério da Cultura, colocando em xeque a realização da 30ª edição.

Assim, a 31ª Bienal marca o retorno à saúde financeira, buscado com afinco pela durante a gestão de Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal entre 2009 e 2013 (e recentemente colocado à frente do MASP). Mesmo herdando uma dívida de R$ 4 milhões da gestão anterior, ele conseguiu garantir a realização da 30ª Bienal, e possibilitou que seu sucessor Luís Terepins assinasse um acordo com o Ministério da Cultura encerrando todas as pendências da instituição.

É interessante notar, porém, que a crise institucional está longe de ser sanada. Um dos principais problemas é sua estrutura institucional anacrônica, centrado em torno do Conselho da Bienal. Esse órgão, declaradamente inchado, não remunerado e com alguns membros vitalícios, funciona como uma espécie de “congresso” da Bienal, com poder de vetar as decisões e contas da diretoria.

Além de sua estrutura anacrônica, o Conselho sofre com a falta de renovação, que acaba tendo consequências sobre o perfil do órgão: composto sobretudo de membros da elite paulistana com idade acima de 60 anos, sempre pende para uma postura mais conservadora e descolada da realidade do público em geral. O conceito original por trás do Conselho era ligado à captação de verbas: os representantes da elite, dotados de relações com outros membros da classe de maior poder aquisitivo, poderiam ajudar a buscar recursos para manter a instituição. Porém, há décadas que essa estratégia não apresenta resultados práticos, e ainda resulta em um Conselho que engessa a estrutura da instituição. A desatualização do Conselho é tal que, em meio à crise ainda haviam conselheiros que ingressaram a convite do próprio Ciccillo Matarazzo.

Uma ironia interessante permeia a 31ª Bienal: nos corredores do pavilhão, obras que discutem as transformações e contradições do mundo contemporâneo; nos bastidores, uma estrutura descolada dessas transformações. Será que o contraste entre o discurso inflamado das obras e a estrutura defasada da instituição será suficiente para acelerar a mudança necessária?

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