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AS REFORMAS DE TEMER E OS TEMPOS MODERNOS BRASILEIROS

AS REFORMAS DE TEMER E OS TEMPOS MODERNOS BRASILEIROS

Por Juan Leal

No ano de 1936, a obra-prima de Charles Chaplin, “Tempos Modernos”, foi lançada para o mundo. O filme retrata a consolidação do capitalismo, após a Revolução Industrial, sob a ótica dos operários, ilustrando diversas contradições sociais através do protagonismo de Carlitos. O personagem é submetido a condições paupérrimas de trabalho, com carga horária elevada, pouco tempo de intervalo e assédios morais, sucumbindo a um esgotamento físico e um colapso nervoso. Depois de 81 anos da data de seu lançamento, a atualidade das críticas feitas por Chaplin, diante da conjuntura atual no Brasil, faz com que a obra pareça ter sido feita para prognosticar o país no pós-golpe de 2016. O filme poderia ter sido lançado hoje por aqui.

O governo de Michel Temer iniciou a execução do projeto que financiou o impedimento de Dilma Rousseff e apresentou duas grandes reformas, a trabalhista e a previdenciária, após ter aprovado a terceirização irrestrita, que mudam drasticamente a vida da sociedade. E todas têm um ponto em comum: o arrocho da classe trabalhadora. Juntas, essas medidas são consideradas um dos maiores retrocessos legais da história do país, e retiram importantes direitos conquistados através da Consolidação das Leis do Trabalho, sob o pretexto de modernização das relações entre patrões e empregados.

A Reforma Trabalhista altera pontos da CLT muito sensíveis nas relações entre capital e trabalho, dando maiores poderes para o empregador, e tende a gerar grande instabilidade para os trabalhadores e trabalhadoras, que se veem diante de um exército de reserva de mais de 14 milhões de pessoas. A constante ameaça do desemprego, aliada à desproteção legal, empurra a classe trabalhadora a um ambiente de completa submissão às condições impostas para a potencialização dos lucros dos patrões. Por sua vez, a Reforma da Previdência se alicerça em um suposto déficit, ignorando a dívida bilionária das empresas com a contribuição, para negar o direito à aposentadoria.

Nesse cenário, instauram-se as condições de pauperização da vida: maior carga horária de trabalho, maior pressão psicológica, necessidade de intensificação da produtividade, menos descanso, menor remuneração, instabilidade empregatícia e falta de perspectiva de aposentadoria. Em resumo, isso significa muito labor, em constante estresse mental e físico, até a morte. E as noções de sucesso material no capitalismo continuarão cabendo para poucos, afinal, tais reformas são minuciosamente pensadas para manter os altos lucros do empresariado e a estrutura de poder necessária para a continuidade da lógica. Dessa forma, a vida ganha, cada vez mais, um significado submisso ao capital e seu valor é ditado pelo mercado.

Em meio a essa drástica modificação das relações capitalistas, além de todo prejuízo aos direitos humanos, há um impacto imediato na dinâmica da cidade: diante do aumento da necessidade de dedicação trabalho, os desencontros nos espaços comuns são intensificados e as ruas servem apenas para passagens. As praças esvaziam-se das intervenções que buscam os encontros e a cidade se resume a manifestar apenas os efeitos do caminho entre a casa e o trabalho. Com isso, a cultura tem as suas impressões empobrecidas e as artes se afastam da sociedade civil. A mecanicidade e a supressão dos instintos criativos, ilustradas por Carlitos, são a tônica desse modelo proposto pelas reformas. E as cidades ficam ainda mais partidas. Não há liberdade. Esses são os tempos modernos brasileiros.

A estafa mental e física, aliados à diminuição dos recursos financeiros da classe trabalhadora, ainda geram a óbvia impossibilidade de usufruir algum tempo em atividades lúdicas e culturais, necessárias para a manutenção dos valores que o constitui cidadão e, consequentemente, para a sua própria identificação. Os prejuízos estão tanto para quem produz as intervenções culturais, quanto para quem delas participa. Sem a manifestação do ser cultural não há sociedade que resista à barbárie.

As questões que afetam a vida cultural da sociedade estão no cerne da problemática das reformas, pois não só incidem na organização da classe, mas principalmente na existência do indivíduo enquanto ser social. A exaustão é um dos principais fatores da alienação e cria um distanciamento ainda maior do trabalhador e da trabalhadora de sua própria produção cultural na sociedade. Portanto, impedir o avanço desses duros ataques à classe trabalhadora é também garantir a possibilidade de construção de lugares comuns acessíveis, justos e igualitários. Trata-se de uma luta pelos direitos humanos e pelo direito de existir culturalmente.

 

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