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A solidão da mulher negra e o esteriótipo da “negra forte’’ em How to get away with murder

A solidão da mulher negra e o esteriótipo da “negra forte’’ em How to get away with murder

Por Ana Claudino

A atriz Viola Davis é Annalise Keating, uma advogada criminalista negra e professora universitária na série How to get away with murder(“Como escapar de um assassinato” tradução livre). A série é muito boa e está na terceira temporada (recomendo).

Fazia tempo que uma série mexia tanto comigo, a última foi Breaking Bad. Assisti as duas temporadas e uma coisa me chamou bastante atenção. Annalise passa pela solidão da mulher negra e o esteriótipo da mulher negra forte/ animalizada que vem nos perseguindo desde a época da escravidão de nossas ancestrais.

Ela praticamente carrega o elenco da série toda nas costas, sempre resolvendo os problemas de todo mundo, esconde suas fraquezas, não consegue manter relacionamentos afetivos, além de ser vista como a mulher negra raivosa.

Isso tudo me fez pensar em quantas Annalise não existem por ai no mundo real. Quantas mulheres negras são obrigadas a serem fortes quando não tem condição mais de serem, a não pedirem ajuda para enfrentar os problemas. Quantos lares de famílias negras são “chefiados’’ por mulheres negras. Muitas das vezes porque os maridos foram mortos pelo Estado racista ou porque são homens que decidiram simplesmente ir embora.

No livro “ Mulheres, Raça e Classe’’, Angela Davis nos fala que desde a época da escravidão a população negra não teve o direito da construção de um lar e formação de uma família. Diferente da população branca que podia ser livre, formar uma família e crescer num lar estruturado.

Normalmente as ligações entre a população negras ocorriam porque eram pessoas que estavam sendo escravizadas ao mesmo tempo. Além do que, uma pessoa simplesmente poderia sumir de um dia pro outro porque foi vendida e/ou morta e as mães eram separadas de seus filhos. Na maioria das vezes, esses filhos eram frutos de um estupro causado pelo senhor da casa grande ou as mulheres negras eram obrigadas a transar com homens negros para poder aumentar a população de escravos das fazendas.

Isso fica bastante evidente no filme “ 12 anos de escravidão’’

Não éramos vistos como seres humanos, não tinhamos nomes ou histórias. Eles nos tratavam como tratavam os animais. Éramos apenas braços fortes para produção e lucro dos senhores.Além disso, as mulheres negras eram obrigadas a trabalhar com os seus bebês recém nascidos no colo. Elas não tinham tempo de se recuperar do parto e precisavam sempre ser fortes para aguentar o trabalho forçado e as demais violências que aqueles corpos estavam expostos.

Pra quem acha que o fim da escravidão nos livrou de tudo isso: você está muito engando, caro branco. Diferente do povo branco, a população negra foi traficada pra um continente desconhecido, forçada a trabalhar e passou por uma série de violências e privações. Uma assinatura em um documento não iria consertar tudo isso num passe de mágica.

Mesmo após o fim da escravidão, o povo negro, principalmente as mulheres, precisavam continuar sendo fortes para viver numa falsa sociedade libertária. Nós aprendemos a lidar com nossos problemas sozinhas porque sabemos que a sociedade ainda é racista, que o Estado é racista, o racismo é estrutural e o sistema ainda é feito para nos privar de viver, para matar os nossos. Seja por bala de fogo, intolerância religiosa, criminalização da nossa cultura e corpos, remoção de nossas casas e criação de leis que nos tiram o direito de exercer a tal da cidadania.

Existem muitas mulheres negras por ai enfrentando a solidão e sendo obrigadas a não demonstrar fraqueza igual a Annalise. Porque sabemos que a sociedade é cruel com a cor da nossa pele, os traços dos nossos corpos, nossa cultura e religião, nossa história. O tempo todo tentam nos dizer que racismo é coisa da nossa cabeça e que a escravidão já acabou. Mas será que ainda não vivemos na Casa Grande e na senzala? Será que ainda não existem capitães do mato? Será que ainda não precisamos exercer nossas religiões escondidas com medo de sermos descobertas e sofrer violência?

A história não mudou totalmente, as coisas se repetem mas de uma outra forma e as vezes só quem passa por essas violências pode perceber. Se você é uma mulher negra e está lendo esse texto, saiba que você não está sozinha! Você tem todo o direito de fraquejar! Você é maravilhosa e não precisa carregar o mundo nas costas.

 

 

 

Ana Claudino é preta, gorda, sapatão, diretora de arte e faz leitura de mapa astral nas horas vagas. É youtuber do canal Sapatão Amiga e integra também a Coletiva SapaRoxa – RJ. Contato: analimaclaudino@gmail.com

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