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A Senilidade dos generais (Por que tanto saudosismo?)

A Senilidade dos generais (Por que tanto saudosismo?)

Por Luciane Soares

“Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”

Belchior, Como nossos pais.

Quando chegamos ao prédio, que já foi considerado o mais alto da Tijuca, na esquina da Rua das Noivas, um homem gordo de estatura mediana e calvo nos avistou. Sua roupa esportiva destoava de seu semblante que oscilava entre a polidez e a desconfiança. Era morador antigo, proprietário de um dos apartamentos no endereço em que estávamos prestes a descarregar uma cansativa mudança. Eu retornava como moradora do bairro, um dos mais antigos e tradicionais do Rio de Janeiro. Retornava após 4 anos como moradora do Riachuelo, ramal Leopoldina, muito perto da entrada da favela do Jacaré. Para uma pesquisadora da questão urbana, o contraste era tão evidente quanto o incômodo com a intromissão de nosso novo vizinho. Não conformado com as “credenciais” apresentadas, sacou de um celular e sem preocupar-se com a indiscrição, ligou para o síndico e em um tom de voz bastante firme. Bradou: “ Boa tarde seu Marcos, tem um casal aqui, iniciando uma mudança, disseram que ocuparão o 313, confere?”. A última palavra, “confere” despertara minha atenção e em poucos dias, minha suspeita se confirmaria: nosso novo vizinho era um policial rodoviário aposentado. Durante os cinco anos em que ocupamos o endereço, fomos inquiridos a cada entrada de elevador, sobre nossa profissão, salário, família, rotina. Entre o pitoresco e o invasivo, criamos afeto pelo vizinho que ordenava ao porteiro que todas as tardes (inclusive aos sábados) comprasse seu pão. Percebemos que aos domingos ele ficava visivelmente melancólico.

Neste texto quero discutir este tipo social. Experimentamos de formas distintas a interação com estes senhores em nosso cotidiano. Quero descrever com riqueza de detalhes o que tem despertado minha atenção nestes anos. Comumente os reconheço nas feiras, cafés e farmácias do bairro. Com certa freqüência, as senhoras sentam-se à minha mesa e passam a contar suas memórias. Que desistiram do piano após casar, que mudaram para Petrópolis depois de 30 anos trabalhando no Rio, que fazem um prato de sardinhas com batatas e cebola roxa em papel laminado. E por último… contam com certo pesar, que aos domingos esperam a visita de netos. E esperam.

Os senhores são diferentes. Além do ar desconfiado e das camisas rigidamente alinhadas, costumam dar ordens á estranhos, reclamar da política nos balcões das cafeterias da praça Saens Peña e defender penas mais duras para os assaltos no bairro. Os senhores guardam traços de sua vida ativa. Ocupam o espaço público da praça com dominó ou mesmo na observação de outros transeuntes. Andam com mulheres jovens do Salgueiro em dia de feira. Alguns estão atrás do balcão dos restaurantes portugueses há mais tempo que posso lembrar. Implacáveis, todos os dias.

No espaço de trabalho constituem um exército singular de sábios saudosistas. De forma nem sempre discreta e em alguns casos, vividamente opressora, relatam os feitos de políticos como Brizola, Ulisses Guimarães ou Mário Covas, dependendo das inclinações, filiações e gostos. Em alguns momentos revelam uma memória afetiva pelos tempos idos de “ordem” ao passarem em frente ao América. Tratam seus colegas ou parentes como filhos que precisam de uma orientação certeira. Orientação esta que vem ajustada com muita freqüência à uma visão de mundo elitista e ligeiramente racista. O termo “ligeiramente” objetiva registrar seus discursos de admiração pelo corpo negro das mulheres e pela habilidade com o futebol de Pelé, ícones de construção identitária pós 30, destes senhores como nacionalistas virtuosos e conhecedores dos benefícios da miscigenação.

Mas algo em especial, e neste caso, o relato é confessional, os irrita profundamente: a alteração dos lugares de poder. Aceitam de bom grado um sobrinho medíocre, um músico desleixado, um bajulador confesso ou um pesquisador sem vocação como parte de seu círculo íntimo de conversas e até mesmo de proteção. Mas não podem tolerar espaços de decisão abertos e dialogais. Especialmente se dirigidos por mulheres. Neste momento assumem uma expressão única: a face é tomada por um tom vermelho vivo e apenas as bochechas trepidam enquanto a fronte se expande assustadora. Sua voz, antes moderada e sedosa, adquire o tom de quem fez uso por largos anos de uma saúde invejável. Com uma dieta rica em proteínas. Profetizam o fim das instituições após relatarem a ausência que grandes homens fazem à política, à Universidade, aos meios literários. Usam de expressões em latim, citam filósofos alemães. Tudo isto enquanto encaminham sua agressão e intimidação. Exigem documentos, usam de jargões jurídicos ou médicos, adotam um discurso em favor da democracia mas contrário a destituição das hierarquias internas. E são capazes, no meio de uma decisão coletiva de mandar alguém “calar a boca”, revelando seu modus operandi cotidiano.

Á estes senhores, dou o título de “generais senis”. Sem dar-se por conta que a história já se desfez deles há anos, seguem como almas penadas. Insistem em glórias passadas, em narrar livros escritos e sobretudo, insistem em mostrar que sua ação é fundamental àqueles círculos. Enquanto os demais buscam formas de seguir suas vidas sem ofendê-los, buscando justificar seus atos como senilidade e rabugice, estes não perdem a oportunidade de demarcar a incompetência da juventude. Andam pelos corredores solitários. Algumas vezes, os acompanham tipos aduladores em um café ou mesmo reunião. Quem os vê comprando tomates às dez da manhã de uma terça não imagina do que são capazes.

Não tenham dúvidas, eles são capazes de intimidar, prender, processar adversários sem provas, ordenar violência física, seviciar empregados e mulheres, abusar de crianças enquanto participam de sociedades religiosas cristãs. . Sua falta de vigor físico parece intensificar tais práticas. Ao escrever a última frase deste texto, o mais hábil deles pede seu lugar de direito. Modelo mais bem acabado destes meses sombrios e tipo ideal de usurpador. Deixo à vocês a conclusão quanto ao seu nome… creio que não demorarão 30 segundos para sentir o arrepio de horror causado pela lembrança de sua imagem. E aos generais de nosso cotidiano, lamento. O novo sempre vem.

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Autor

Luciane Soares da Silva
Luciane Soares da Silva

Luciane Soares da Silva, gaúcha de Porto Alegre, alvinegra de coração, colorada por tradição. Negra, bisneta de alemães, neta de sambista estivador. Professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e presidente da ADUENF. Tem estudado racismo, favela e cultura urbana. Temas de seu interesse e sobre os quais desenvolve pesquisas.

Aos leitores
Pretendo escrever sobre cultura urbana e juventude com atenção especial à temática dos direitos humanos no Brasil.

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