Revista Vírus | A repressão às batalhas de rap: o caso do ABC PaulistaRevista Vírus
39874
post-template-default,single,single-post,postid-39874,single-format-standard,ajax_leftright,page_not_loaded,,qode-theme-ver-9.4.2,wpb-js-composer js-comp-ver-4.12,vc_responsive

A repressão às batalhas de rap: o caso do ABC Paulista

A repressão às batalhas de rap: o caso do ABC Paulista

Por Elber Almeida, do ABC paulista

Fotografia:  Junior Pelaez / Reprodução de Facebook da Batalha da Matrix

 

As batalhas de rap são cada vez mais conhecidas no país, seja por causa de vídeos que viralizam nas redes sociais ou pelo crescimento de diversos artistas que surgiram nessas batalhas . Elas, no entanto, também possuem outro lado.

É relativamente conhecida a história da repressão à cultura negra no Brasil. São famosas a proibição da capoeira, a perseguição aos terreiros de religiões de matriz africana – o que ocorre ainda hoje – e mais recentemente também ficou evidente a ação da ditadura militar nos bailes soul cariocas nos anos 70.

A cultura Hip Hop, ao chegar ao Brasil nos anos 80, fica famosa por levar adiante o debate racial de forma muito contundente – o que já ocorria em sua origem fora do país. Um dos fenômenos relacionados a esta cultura vem ganhando proeminência: as batalhas de rimas.
E o que seria isso, se perguntam todos? É quando duas pessoas (os rimadores) se enfrentam a partir de rimas improvisadas e vence a disputa quem recebe mais gritos da plateia. Em geral, as batalhas ocorrem no chamado estilo “sangue”, que significa o puro enfrentamento. Porém, também existem batalhas temáticas em que os rimadores precisam desenvolver certos assuntos sorteados ou escolhidos pela plateia.

Qual a origem? Este enfrentamento remete ao início da cultura Hip Hop em que gangues estadunidenses substituíram a disputa armada pelas batalhas de rimas ou de break dance. Ocorre aqui uma síntese entre a violência quotidiana enfrentada pela juventude pobre e negra e o ideal de apaziguamento dos fundadores do Hip Hop: Kool Herc e Africa Bambaata. Apesar de, por vezes, as batalhas serem muito “sanguinárias”, ao final os MC’s cumprimentam-se. A disputa se limita “à rinha” quase sempre.

É deste tipo de cenário que surgiram grandes MC’s que hoje despontam na cena artística nacional. tais como Emicida, Froid, Djonga. É neste tipo de evento que surgem diversas parcerias entre MC’s que estão iniciando, e beatmakers, que dão origem a diversos trabalhos artísticos que pipocam pelo Brasil e dão mais uma perspectiva de vida para este setor marginalizado da população. A “geração nem-nem” (nem trabalha, nem estuda) mostra que talento também tem.

No melhor estilo “nós por nós” tudo isso acontece sem apoio governamental. Não bastasse isso, ainda ocorre uma boa dose de repressão policial a mando dos diversos governos municipais e estaduais. Não é diferente no Grande ABC Paulista.

A repressão às batalhas de MC’s no ABC Paulista

Em 2016, saiu na mídia nacional um caso em que a Polícia Militar (que age sob comando do governador Geraldo Alckmin do PSDB) reprimiu violentamente a Batalha da Matrix, o maior evento em público deste tipo que ocorre no estado de São Paulo, mais especificamente em São Bernardo do Campo. Foram diversas balas de borracha e bombas de gás, deixando participantes feridos e acabando com a batalha, que já havia sido reprimida em menor medida outras vezes e ainda é.

Naquele momento os governos saíram derrotados graças à manifestação dos participantes, que ganhou eco através das redes sociais e da mídia tradicional. Isso, porém, não foi suficiente para colocar fim deste tipo de prática policial. Num outro episódio mais recente, enquanto chovia e a batalha ocorria à capela, ou seja, sem caixa de som, um GCM atirou spray de pimenta no meio da roda, provocando tumulto.

Em 2016, a GCM de Diadema atirou diversas bombas de gás na Praça da Moça, localizada no centro da cidade, o que dispersou não só centenas de pessoas que estavam num dos poucos locais públicos disponíveis para lazer na cidade, mas também a Batalha da Central de Diadema, a mais antiga do ABCD Paulista.

Ao final daquele ano, a Batalha do Carrefa que ocorria em frente ao supermercado Carrefour na avenida dos Estados, em Santo André, foi impedida de acontecer neste local pela polícia e hoje funciona embaixo de um viaduto próximo.

No começo de 2017, a GCM de São Bernardo do Campo, agora sob comando do novo prefeito da cidade, Orlando Morando (PSDB), tentou impedir o funcionamento da Roda Cultural da Brasil, batalha das minas que ocorre em outra praça de São Bernardo do Campo. Mesmo após o evento acabar e a caixa de som ser desligada, os “guardas” dispersaram a praça, impedindo o público de usufruir do espaço público, sob alegação de que a sociedade sentia-se incomodada com o evento, numa zona não residencial.

Também no início do ano a GCM de São Caetano do Sul dispersou na base do cassetete a Batalha da Galeria, que ocorria em frente à estação de trem da cidade. A violência continuou pelas ruas do centro de São Caetano, com os policiais perseguindo participantes do evento como se fossem infratores. Hoje, a batalha ocorre num local fechado pertencente à prefeitura.

Em Mauá, a Batalha das Pistas, que ocorre num parque municipal da cidade, passou a sofrer um constante boicote da prefeitura: fechamento do parque mais cedo para impedir a entrada do público, eventos sendo marcados no mesmo dia e local etc. A organização está na luta para garantir a permanência da batalha que já existe faz quatro anos.

Existem ainda vários outros casos. Só neste ano o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) resolveu iniciar uma investigação sobre a repressão às batalhas de MCs no ABC. Os relatos vão desde a repressão ostensiva até os constantes enquadros a participantes e organizadores dos eventos. Alguns, como os organizadores da Batalha da Matrix, já receberam até mesmo intimação do Ministério Público paulista.

Quais os motivos da repressão?

As alegações são muitas: supostamente as batalhas seriam pontos de tráfico de drogas, promoveriam a criminalidade em seu entorno, atrapalhariam o sossego da população etc. Tudo isso é altamente questionável.
Nas batalhas os MC’s organizadores costumam pedir constantemente para que os usuários de drogas ilícitas se afastem do local em que o evento ocorre. Mesmo que ocorra uso de drogas em eventos com centenas de participantes, responsabilizar o evento por isso é completamente arbitrário, visto que o uso de entorpecentes lícitos e ilícitos está em todas as sociedades, e ocorre também nas festas de condomínio ou nos bares, por exemplo, da Vila Madalena frequentados pela classe média. Se o Estado não consegue dar uma resposta positiva à questão das drogas, quem dirá a organização de uma batalha que não usufrui de nenhum recurso público.

O Hip Hop possui um histórico de apartar conflitos entre gangues e retirar pessoas da criminalidade. Muitos dos rappers famosos de hoje, considerados grandes artistas, são ex-detentos. Nas letras de rap é constante o alerta para que se fuja do caminho do crime. Nas batalhas de MC’s a juventude encontra uma forma de produzir cultura, e até mesmo sobreviver a partir dela, criando produtos e abrindo caminho para apresentações remuneradas. Se ocorrem crimes no entorno de uma batalha de MC’s, ocorrem crimes em todos os locais da sociedade, desde os cantos mais remotos até os gabinetes.

A maioria das batalhas de rap ocorre em praças públicas, muitas vezes pouco utilizadas, com estruturas precárias – em alguns casos faltando até mesmo iluminação. As organizações fazem parcerias com moradores de seus bairros e promovem projetos de doação de livros, reivindicação por espaços de lazer etc. Esse movimento não só não contribuiria para o aumento da criminalidade, como pode muito bem promover a diminuição desta.

Para entender os reais motivos da repressão precisamos considerar a formação de nosso país. O Brasil tem uma raiz notavelmente racista. Não foram apenas 388 anos de escravidão, mas também décadas de política de embranquecimento da população e um persistente racismo institucionalizado, que faz da população negra minoria nas universidades, maioria na fila do desemprego e nos postos de trabalho precários, maioria entre os mortos pelas forças policiais etc. Dentre todos os aspectos do racismo, também há o da repressão à cultura negra, como os casos já citados no início do texto. E o Hip Hop é parte da cultura negra.

E por que reprimir a cultura?

Cultura também é identidade. Quando um sujeito se identifica e reconhece seu lugar na história se torna um potencial transformador da realidade. Os negros, ao identificarem-se enquanto tal, percebem o racismo que sofrem e a partir daí podem lutar contra ele. Já a burguesia brasileira possui interesses econômicos na manutenção de um sistema racista. Sem o racismo, uma grande parte da população não seria superexplorada e não garantiria lucros extras aos privilegiados.

As batalhas de MC’s não são frequentadas só por negros, mas este aspecto precisava ser evidenciado devido à relevância que possuí e o fato de poucas vezes ser levado em conta. Porém, ele alia-se a outros fatores. Não só negros se identificam com as batalhas de MC’s, mas todo um setor de juventude pobre e periférica, que alguns resolveram alcunhar como “geração nem-nem”. O fato é que esta parcela da população não tem muitas perspectivas de futuro num mundo e país assolados pela crise do capital, que destrói direitos históricos conquistados pela classe trabalhadora, como a aposentadoria e as leis trabalhistas. A partir daí esta geração procura formas culturais mais adequadas à sua condição, que inclui falta de acesso à cultura e ao lazer.

Assim, essa população, em sua maioria jovem, pobre, periférica e negra, desloca-se da periferia das grandes cidades e vai em direção aos centros e praças públicas. Logo é recebida com a típica repressão governamental tratada neste texto. A cidade é planejada a partir de um ideal de “cidade negócio”, o empreendimentismo urbano caracterizado pelo geógrafo britânico David Harvey. O capital coloca a infraestrutura urbana a serviço de seu processo de acumulação, destinando-a aos interesses privados de construtoras, especuladores financeiros e grandes investidores internacionais. Assim, seu uso destina-se ao consumo. Toda aquela atividade que não remeta ao consumo será eliminada. O prefeito se aproxima cada vez mais da figura de um gestor que visa vender o espaço urbano como uma mercadoria para o capital financeiro.

Apesar da repressão, as batalhas de MC’s resistem no ABC paulista e no Brasil. Esse tipo de evento que possuí alguns exemplos mais tradicionais, mas é de certa forma novo devido à explosão recente, certamente ainda trará muitas histórias a serem contadas. Resta saber se ele ficará apenas no histórico da repressão à cultura dos oprimidos ou se será preservado como patrimônio de todo um povo.


Vídeos de repressões:

https://www.facebook.com/BatalhaDaMatrix/videos/1302410576543652/

Vídeo sobre última grande repressão ocorrida à Batalha da Matrix

https://www.facebook.com/BatalhaDaMatrix/videos/883904225060958/

Vídeo sobre repressão à Batalha da Matrix ocorrida em 2016 e que repercutiu na mídia nacional

https://www.facebook.com/portalesquerdaonline/videos/685055084995650/

Vídeo de repressão à Batalha da Central no centro de Diadema, a batalha mais antiga do ABC


https://www.facebook.com/lucasfonsecadovale/videos/vb.100001863158994/1429094657162626/?type=2&video_source=user_video_tab

Vídeo de repressão à Batalha da Galeria, em São Caetano do Sul

https://www.facebook.com/esquerdadiario/videos/1878021675786374/

Vídeo de repressão à Roda Cultura da Brasil, batalha das minas em São Bernardo do Campo

Comente com o Facebook
No Comments

Sorry, the comment form is closed at this time.