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A Lei é para Todos: Propaganda política ou não?

A Lei é para Todos: Propaganda política ou não?

Por André Nunes

Desde seu início, o cinema sempre foi permeado por filmes de propaganda política. No socialismo de Lênin, no nazismo de Hitler, nos Estados Unidos em guerra (ou seja, desde sempre), longas-metragens criados para passar determinada mensagem política e social ao público são, afinal de contas, funções da sétima arte. Quando bem produzidos, esses filmes alcançam um patamar de influência ainda maior. Quando assumidamente de propaganda, a crítica é unânime em reconhecer sua coragem e posição definida.

Eis que, no Brasil de 2017, nos deparamos com um filme de propaganda que reúne algumas dessas características: o controverso Polícia Federal: A Lei é para Todos, cuja estreia nacional acontece nessa quinta (7) – coincidência, ou não, no Dia da Independência. E quais são elas?

Dirigido por Marcelo Antunez (conhecido pelas comédias Um Suburbano Sortudo e Até que a Sorte nos Separe 3, esse último já flertando com a crítica política ao governo Dilma), com roteiro de Gustavo Lipsztein e Thomas Stavros e produção de Tomislav Brazic, o longa é inegavelmente bem escrito, bem editado, com sequências de ação na medida e efeitos de primeira. Algumas dessas cenas são exageradas de propósito, como a perseguição inicial ao doleiro Alberto Youssef (Roberto Birindelli), para tornar o filme um thriller policial de interesse ao grande público.

Segundo a coluna de Monica Bergamo (link a seguir), os produtores do filme “mantêm a decisão de não revelar quem financiou o filme, que custou R$ 16 milhões. Dizem apenas que os patrocínios vieram de pessoas físicas e não de empresas. E que elas não respondem a processo por corrupção”.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2017/09/1915001-advogados-de-sp-querem-saber-quem-patrocinou-filme-policia-federal.shtml

Cito isso pois, ao não revelar quem financiou o filme, o diretor e os produtores levantam uma série de questões acerca dos interesses por trás da produção – que deverá ser uma trilogia sobre a Operação Lava Jato. Voltando às características iniciais dessa crítica, A Lei é para Todos peca justamente por não se assumir um filme de propaganda, tentando se justificar a todo momento como “isento e imparcial”.

Isso é notado não só nas entrevistas com elenco e realizadores, mas em várias sequências (a maioria delas presentes no trailer): diálogos dos delegados federais como “Nós não estamos perseguindo ninguém, quem cai na nossa mão é investigado” e “Eu fiz campanha pra eles, esqueceu?” servem para rebater quem apontar o dedo para a propaganda (inegável) do filme. Soma-se a isso uma introdução que aponta a corrupção brasileira como herança da colonização portuguesa, que remonta a 1500 e chegou ao século 20 e 21 com vários escândalos políticos que “nunca deram em nada”.

Falando nos delegados, a construção das personagens de Antonio Calloni, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky e João Baldasserini – os quatro protagonistas que “encarnam” investigadores variados da Polícia Federal, mas foram inspirados respectivamente em Igor de Paula, Erika Marena (que batizou a Operação), Márcio Anselmo e Maurício Moscardi – segue o perfil dos heróis clássicos e incorruptíveis, enquanto os investigados pela Lava Jato são mostrados como pessoas puramente abjetas e malandras. Tudo maniqueísta e “preto no branco”.

Ora, quem acompanha a Lava Jato – e tudo na vida, aliás – sabe que ninguém é puramente bonzinho ou vilão. O mundo é cinza, assim como toda e qualquer relação humana. Retratar os personagens dessa forma, mais uma vez, só reforça o caráter de propaganda do filme de Antunez.

Voltando ao roteiro, que é hábil em explicar os principais momentos da Operação entre março de 2014 e março de 2016, assim como as ligações entre doleiros, empreiteiras, partidos e políticos envolvidos, seu ponto máximo de maniqueísmo acaba sendo, inegavelmente, os retratos do juiz Sergio Moro (Marcelo Serrado) e do ex-presidente Lula (Ary Fontoura).

Enquanto o juiz federal é mostrado dando aulas na UFPR, ao lado da família e em cenas de reflexão antes de tomar cada decisão, Lula é praticamente uma “ameaça fantasma” durante metade do filme, até começar a ser citado pelos investigadores e desembocar na alardeada cena de sua condução coercitiva, quando Ary Fontoura nos entrega uma atuação que beira o ridículo de tão caricata. Diálogos como “O japonês não veio me prender? Já mandei o Cardozo (ex-ministro da Justiça) dar um jeito nele” ou “Quando eu voltar a ser presidente vou me lembrar de vocês, delegados” deixam claro não só a ideologia política de A Lei é para Todos, mas a intenção de sua produção.

Ao tentar ser um Spotlight – vencedor do Oscar que retratou uma investigação jornalística sobre um dos maiores escândalos de pedofilia e abuso sexual envolvendo padres e membros da Igreja nos EUA – A Lei é Para Todos acaba sendo um filme institucional que reforça a importância da Lava Jato (que é inegável, sem dúvida), mas ao mesmo tempo atua como filme político de propaganda anti-PT. O que não é problema, desde que se assuma como tal, o que não vem sendo feito…

 

 

 

André Nunes, formado em Jornalismo pela UFPR, com passagem pela Université Stendhal, na França. Colaborador da coluna Aroldo Murá, no jornal Indústria & Comércio de Curitiba. Viciado em séries e cinéfilo, escreve sobre cinema nas horas vagas.

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