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A GALINHA DOS OVOS DE OURO ENVENENADO E OS ABUTRES

A GALINHA DOS OVOS DE OURO ENVENENADO E OS ABUTRES

Por Caio Almendra

Suzane Von Richthofen é a galinha dos ovos de ouro de nossa imprensa. Após tanto investimento no sensacionalismo, qualquer menção ao nome Richthofen é garantia de vendas de jornais e revistas, aumento do ibope ou ganhar alguns cliques e compartilhamentos.

Ela é a cantora evangélica mais conhecida entre não-evangélicos. Teve o relacionamento lésbico mais conhecido entre evangélicos. Cada passo de sua vida se tornou um desenlace de uma novela e o Brasil a acompanhou de muito perto. O país só tinha se esquecido, parcialmente, de um personagem secundário: Andreas Von Richthofen.

O irmão de Suzane era uma criança de 11 anos quando sua família foi completamente destruída. Os pais foram assassinados, a irmã foi presa. Toda a noção de segurança se foi, toda a intimidade destruída. O menino, ainda por cima, teve que assistir a própria triste história transformada em série de TV. Teve que reviver vezes e mais vezes a tragédia que acabou com sua infância. E quanto mais a TV se esforçava para retirar mais uma notícia, mais um ovinho de ouro do “Caso Von Richthofen”, mais esse sofrimento aumentava.

Quando a mídia escolheu não deixar Suzane seguir sua vida fora dos holofotes, ela condenou Andreas a viver sob a eterna tortura de não poder deixar o passado infeliz para trás. Hoje, saiu a notícia de que Andreas foi internado em um hospital psiquiátrico após a ação na “Cracolândia” de São Paulo.

Aqui, um adendo se faz importante: precisamos falar sobre a forma que tratamos as pessoas com uso abusivo de drogas e sobre o próprio conceito de “Cracolândia”. Como até o médico midiático Drauzio Varella comentou, a “Cracolândia” é um resultado imediato da miséria e não das drogas. Em alguns pontos chamados de “Cracolândias”, a droga mais utilizada é o álcool, na forma miserável de cachaças em garrafas de plásticos em formato de bola. A maioria são espécies de favelas de sem-tetos, pessoas que não tem nem a possibilidade de ocupar um espaço próprio e optam por calçadas e praças. Devemos tratar da miséria urbana e da saúde mental. Mas estamos recorrendo sempre à truculência física como forma de resolver o problema. A guerra às drogas nada mais é que isso.

E, voltando ao Andreas, o menino perdeu a família com 11 anos. Sua vida foi devassada. E a cada nova reportagem sobre Suzane, suas “desventuras” na cadeia, seus indultos de Natal, se negou mais e mais a Andreas a possibilidade de virar a página. Quando sua vida é dessa forma torturante, o que você faz? É absurdo pensar que Andreas precisava fugir? Mas onde Andreas ia, a perseguição midiática continuou.

Cada ovo de ouro que os abutres da mídia retiraram do Caso Richthofen, foi um ovo envenenado na vida de Andreas. A sociedade torturou Andreas. E esse é o triste resultado.

Nota da editora:

Impossível não reparar a diferença de tratamento dado pela mídia hegemônica, além da comoção seletiva da população, em relação à notícia de que Andreas Richthofen habitava a região da Cracolândia em SP. De acordo com o site de notícias UOL, a prefeitura de SP não quis se pronunciar sobre o caso de Richthofen por se tratar de “um drama pessoal”. Esta mesma prefeitura, entretanto, não se comoveu com o drama de cada habitante da região da Cracolândia quando promoveu, no último dia 21 de maio, uma série de ações truculentas e arbitrárias contra os usuários em situação de miséria. Todos os usuários de drogas que chegam à situação de miséria (ou não) possuem dramas pessoais e que devem ser respeitados e acolhidos. A questão de drogas deve ser enxergada como problema de saúde pública e não como caso de polícia. A equipe Virus torce pela recuperação de Richthofen e de cada usuário agredido e humilhado durante a repressão policial promovida pela prefeitura de SP. Que possamos também nos comover e ter empatia com as histórias daqueles que não conhecemos e não apenas com as de alguns poucos que a mídia hegemônica insiste em privilegiar.

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Autor

Caio Almendra
Caio Almendra
Caio Almendra é produtor audiovisual, bacharel em direito e membro do Coletivo Abolir.
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