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2013 quatro anos depois…

2013 quatro anos depois…

Por Felipe Velloso (colaborador)

 

Conforme nos distanciamos de 20 de junho de 2013, quando milhões de pessoas foram às ruas na luta pelos seus direitos, novos textos e leituras aparecem para o debate. Isso ocorre porque um movimento como aquele foge das definições fáceis e parece polarizar mais do que nunca diferentes segmentos da esquerda brasileira.

Desta forma, os levantes de junho precisam ser compreendidos como um fenômeno político e social complexo, que não possui apenas uma causa ou um elemento definidor. Ainda que a pauta inicial tenha sido o transporte, as reivindicações incorporaram a defesa de direitos negados historicamente à população brasileira, como saneamento, saúde, segurança, educação e democracia. Mesmo no caso do transporte, a pauta superou a questão do reajuste das passagens, incluindo o debate do direito à cidade, entendido como acesso a todos os bens e serviços existentes na cidade e que, normalmente, estão restritos aos cidadãos com maior poder aquisitivo. “Não foi só por 20 centavos”, dizemos desde então.

Num movimento massificado e heterogêneo, as passeatas do dia 20 de junho foram as mais numerosas da história do Brasil. De forma difusa, a insatisfação geral pelo estado das coisas se concentrava em palavras de ordem como “Fora, Cabral”, “da Copa eu abro mão, quero dinheiro pra saúde e educação”, “Cadê o Amarildo”, etc., mostrando as primeiras rachaduras no projeto político do PMDB, que controlava o Rio com punho de ferro. Mas o sentimento de repúdio aos governos foi além e desembocou na crítica aos partidos e a outras entidades representativas da sociedade civil.

A experiência das manifestações de 2013 tornou possível perceber que havia muita luta e vida política fora das formas tradicionais de organização da esquerda. A posição anti-institucional de muitos que estavam buscando novos caminhos para as lutas por direitos
encontrou fôlego, também, no desgaste dos governos petistas e dos instrumentos sindicais que compunham a base de sustentação do projeto de conciliação de classes que marcou a década anterior aos levantes de junho. A construção de alianças políticas com importantes frações da classe dominante e a consequente inviabilização das reformas estruturais sempre prometidas pelo petismo fizeram com que o partido tivesse um desencontro com a juventude que havia despertado para a política no século XXI.

Diante desse quadro, o que fez o “poder público” nas mais diferentes instâncias?

Demorou muito para responder às ruas, se é que o fez; não levou os levantes a sério, chegando a ridicularizá-los em seus discursos públicos. A única e uníssona reação foi a violência policial por todo canto.

Além da repressão contra os manifestantes, o que observamos foi também um enfrentamento institucional do então governo Dilma com a ameaça de leis absurdas que contribuíam para a retirada de direitos, como as leis antiterror e a Lei Geral da Copa. Nas ruas, boa parte dos manifestantes de junho tinha a percepção mais ou menos clara de que as leis antiterror acabam sempre criminalizando quem luta, e por isso elas passaram a ser um dos pontos centrais dos enfrentamentos nas ruas. Ainda que a revolta popular tenha tido um pequeno efeito na lei – isto é, parlamentares passaram a argumentar que ela não versava sobre os movimentos sociais e que isso ficaria claro no texto final – no fim das contas, a essência da proposta mantinha-se a mesma: crime hediondo, suspensão de direitos civis e a determinação de que qualquer suspeito de terrorismo pudesse ter dados sigilosos quebrados.

Se hoje o petismo culpa 2013 como o “início” do golpe, ele o faz desprovido de autocrítica (mais uma vez). Naquele momento, estava claro que o Partido dos Trabalhadores não seria mais capaz de realizar as reformas estruturantes que eram necessárias para as classes de luta. Somavam-se a isso escândalos que iam da decisão de não ocupar a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, que acabou presidida por Marco Feliciano, à construção de Belo Monte. Do outro lado, entre os conservadores, o partido era tachado como pai da corrupção.

Sem controle das ruas, o PT passou a ser presa fácil para o discurso da direita, que, naquele momento, se encarregou de encampar a ideia da mudança, da alternância de poder etc. Mesmo assim, o impacto acabou demorando para vir (tendo em vista que o partido ainda foi bem nas eleições de 2014, alcançando a maior bancada do congresso), e só chegaria durante o segundo mandato da Dilma com o golpe.

O que podemos levar de tudo isso?

O que ocorreu em junho de 2013 foi uma experiência única na “Nova República”, uma confluência de lutas por direitos não mais protagonizadas pela vanguarda da esquerda institucional, mas puxadas por movimentos sociais e novos agrupamentos, a maior parte de organização horizontal. Foi um período de iniciação política para uma nova geração de militantes e ativistas.

Depois de junho, a pauta “transporte público” passou a ocupar um lugar de destaque nas prefeituras, que, de uma maneira geral, tiveram de ser menos coniventes com os aumentos demandados pelas empresas de transporte. O tema passou a ser espinhoso, ainda que os empresários da categoria não tenham perdido seus privilégios.

Boa parte da esquerda tradicional vê com desconfiança os resultados de 2013, tendo em vista o Congresso conservador de 2014 e o golpe sofrido por Dilma Rousseff. Esperar um retorno das urnas de um movimento que em sua maioria foi anti-institucional parece estranho. Se temos de apontar um legado para o que se sucedeu naquele mês é, justamente, o “retorno” ou a legitimação das ruas como espaço de reivindicação política.

Antes de 2013, a ocupação das ruas era tímida, quase sempre restrita às categorias da esquerda tradicional. Depois de junho ela voltou a ser de todos, inúmeras pessoas e grupos passaram a contar com este instrumento para as suas lutas, de pequenos coletivos independentes de artistas até organizações de moradores afrontados pelo governo com a perda de moradias.

A legitimação das ruas como um espaço para manifestações é um saldo absolutamente positivo, mesmo que tenhamos de dividi-la com a direita, como ocorreu a partir de 2015. Não existe democracia sem gente na rua, sem praças cheias, e a redescoberta dessa ferramenta por uma nova geração de brasileiros é fundamental para a nossa saúde política e faz parte do jogo democrático. Se esperamos que um dia o Brasil se torne um país mais justo, com menos desigualdade social, com serviços de qualidade para toda a população e etc, esta resposta se encontra somente pelas vozes nas ruas e nunca nas velhas instituições de um combalido congresso nacional.

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Autor

Isabella Mendes
Isabella Mendes

Historiadora, mestranda em Historia Social (PPGHIS-UFRJ), membro do corpo editorial da Virus desde 2016. Atua no Setorial Estadual de Mulheres do Psol/RJ e na Comuna Rubro Negra (CRN).

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