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15 minutos no vermelho

15 minutos no vermelho

Por Caio Almendra (Colunista Virus)

A vida nem sempre cabe na fábula da Lebre e da Tartaruga: ao contrário do que dizem os ditados, em muitas situações nada é mais imprudente que andar devagarinho. Devagar demoramos mais a chegar, por isso tantos pensam andar rápido como algo relacionado à ansiedade e imprudência. Mas ninguém anda devagar na rua chuvosa por um motivo muito simples: a demora significa mais tempo exposto à intempéries. Ninguém fica prudentemente debaixo da chuva esperando um raio o atingir. Certos momentos, certas mudanças, exigem a pressa da prudência.

Levando ao mundo concreto, nesse mês saiu a notícia de que a polícia italiana interrompeu uma orgia entre padres católicos, com uso de entorpecentes. O caso ganhou os noticiários mundiais. Um dos envolvidos seria próximo ao Papa Francisco que, segundo as reportagens, teria ficado muito irritado. O caso é bem interessante para olharmos a necessidade de certas mudanças serem mais bruscas, menos reformas lentas e mais revoluções abruptas.

Não sei (e como muito da política interna do Vaticano é ocultada com todo esforço pela própria Igreja, poucos sabem) sobre os detalhes da política interna do Vaticano, o que falarei aqui é fruto das impressões sobre o que é divulgado amplamente. Papa Francisco é um expoente da ala mais progressista da Igreja Católica. Sua chegada ao papado foi conturbada. A radicalização política entre conservadores e progressistas aparenta ter atingido patamares insustentáveis. Com a morte de João Paulo II, os anseios de progresso na Igreja se consolidaram. O catolicismo perde fiéis há anos e a urgência de mudanças na Igreja ficou evidente. Nesse cenário, escolheram o Papa Bento XVI para um mandato-tampão, que deveria ser curto e pacificar as disputas na Igreja. Deu errado e pela primeira vez na história, um papa renunciou ao papado. O poder chegou, enfim, aos progressistas.

Contudo, a Igreja não se tornou menos dividida com a eleição de Francisco. Os conservadores continuaram com a campanha de que os progressistas queriam acabar com o catolicismo. Um dos temas centrais dessa disputa na Igreja é o mesmo há décadas, a sexualidade. Francisco foi moderamente progressista nessa área, com falas relevantes sobre a aceitação da comunidade LGBT. Porém, não houve avanço em um tema essencial para a organização da Igreja: a sexualidade dos padres e freiras.

Não existem estudos completos sobre a prática sexual na Igreja Católica. As informações que temos sobre o assunto são oriundas de vazamentos, denúncias e até espionagem entre os grupos políticos da Igreja. Não se tem um número preciso de quantos sacerdotes que fizeram voto de castidade são sexualmente ativos. Mas, o que se pode dizer é que uma quantidade considerável seja. Muitos padres mantem parceiras entre freiras ou mesmo mulheres de fora da Igreja. Muitos, como esses padres descobertos pela polícia, tem relações homossexuais entre si. E, claro, há a constante chaga dos casos de abuso sexual de menores por padres.

Mesmo nesse cenário, Francisco não avançou significativamente na discussão sobre o fim do voto celibatário entre padres. Tivesse o feito, sofreria com uma reação abrupta por um tempo, os conservadores não deixariam barato. Porém, com o passar de pouco tempo, as vantagens da medida poderiam vencer, tanto na satisfação dos sacerdotes, quanto na maior procura pelo sacerdócio como opção de vida, quanto na felicidade dos fiéis que passariam a lidar com sacerdotes-humanos, falíveis e empatizáveis. Possivelmente, o trauma da mudança passaria e o conservadorismo na Igreja minguaria. Infelizmente, não foi essa a alternativa de Francisco.

Francisco acreditou que poderia mudar a Igreja aos pouquinhos. Isso pode se dar por ele acreditar que a Igreja apenas precisa de pequenas mudanças. Porém, toda a estética e simbologia de Francisco, desde a adoção do nome de um santo ermitão e renegado até a renúncia integral dos símbolos de ostentação da Igreja, aparentam que Francisco almejava uma mudança radical da Igreja, que a aproximasse dos pobres e da vida das pessoas comuns. Um sonho franciscano, enfim.

Nada faria mais por tal transformação do que permitir que sacerdotes fossem sexualmente ativos, casassem, constituissem família, fossem membros exemplares da própria família e, assim, sofressem e fruíssem da vida dos comuns. A própria capacidade de confissão de um padre poderia melhorar. Hoje, padres aconselham sobre a manutenção da família sem, contudo, fazer parte de uma. Francisco aparentemente sabia dessa contradição. Mas optou por testar as mudanças aos poucos.

Acontece que ficar por muito tempo na chuva é pedir para ser acertado por um raio. Há pouco tempo, Francisco anunciou uma mudança brusca na Igreja, ao retirar conservadores da alta cúpula da Igreja, em especial dos postos teológicos. Foi uma espécie de limpeza nos inquisidores que perseguiram a teologia da libertação. Agora, uma denúncia supostamente de vizinhos(não devemos descartar que toda a descoberta de tal orgia não fosse uma reação do setor conservador da Igreja) impacta fortemente o poder do Papa. Um dos envolvidos na orgia seria bastante próximo de Francisco.

Tenho visto muitas pessoas denunciarem a hipocrisia desses padres. Posso estar sendo ingênuo mas acredito que eles podem não ser hipócritas. São pessoas perseguidas, levadas a escolher entre a fé e a própria sexualidade e identidade. Possivelmente, são justamente o setor da Igreja que luta para que a Igreja progrida e se torne outra instituição, uma que acolha LGBTs, sem voto de celibato e, talvez, até com sacerdotes abertamente homossexuais.

O erro foi achar que seria possível chegar nessa nova Igreja aos poucos, sem que a velha Igreja reagisse e matasse o sonho. Se um Papa chegasse e subitamente acabasse com a obrigação do voto de celibato, é possível que esse sonho chegasse bem mais rápido e de forma bem menos traumática. Muitas vezes, é mais utópico quem acredita que é possível andar devagar e sobreviver à reação por anos a fio, do que quem luta para mudar as coisas radicalmente e acabar com a reação de uma vez só.

E, sim, essa é a uma resposta aos muitos que me perguntaram “mas o PT fez tão pouco e sofreu um golpe, imagina se tivesse feito o tanto que você queria?”. Bem, se tivesse feito as reformas de bases, a começar pela a Reforma Agrária, teria ou perdido naquele momento ou vencido aquele momento e fortalecido as lutas populares, sendo muito mais forte para enfrentar crises futuras. Com a popularidade altíssima que tinha, dava para vencer. Só que preferiu não lutar, ou lutar tão devagarinho que a reação chegou.

Frente todos os ditados sobre prudência na calma e lentidão, prefiro um de meu avô: antes viver 15 minutos no vermelho do que a vida inteira no amarelo. Tem certos problemas que quanto mais esperamos e circundamos, maiores eles ficam.

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